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Ruído

Apr. 19th, 2009 | 07:53 am
music: bon iver, re: stacks

Vou odiar-te todos os dias da minha vida
Enquanto tiver força para tal.
E gostava apenas que conseguisses ouvir o som
que faço
que se faz ouvir
quando te odeio tantas noites seguidas
durante este tempo todo.

É assim um som brando, cadenciado
Um ruído quase imperceptível
que percorre todos os limites do meu corpo
E chega aos outros.

Eles sabem que o ouvem
Quando me tocam e eu lhes toco a eles.
Quando se apaixonam por mim
E eu
Por ti, uma e outra vez
Pela memória já desincorporada
Expropriada
que teima em não arredar daqui.

Eles não sabem que é por ti que se perdem
Pelo barulho que faz o asco
Este ranger rancoroso e furtivo.
E eu desprezo-os a eles
Ainda mais que a ti, por isso.

Quero que a vida te corra mal
Que te embebedes e não percebas porquê.
Que continues a chorar sozinha
Sempre que perceberes que ninguém vai ouvir.

Vais sempre saber que o teu amor
Estará seguro comigo.

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roubado à lebre

Jan. 6th, 2009 | 02:41 pm

Digo-te por isso
que não me obrigues a luz.
Que escrever não é fácil,
que viver não é fácil
quando começamos a frase a meio.
Que lavo a cara ao chegar tão tarde
e mesmo assim o dia não se despega,
e mesmo assim
tu não estás, ninguém está.
Que não tenho espaço na minha secretária,
na minha vida, na minha cama
para tanto espaço.
Que já me disseram urbana,
e nem por isso me disseram decadente,
e que eu gostei.
Que já me disseram
muitas vezes
disfarçadamente triste,
e que por isso, por ser triste, por
sermos todos tristes, não mo deviam dizer.
Digo-te por isso
que não era minha intenção dizer-te mais uns versos
tristes e sem luz, e por isso, só por isso,
não era minha intenção dizer-te nada.


Filipa Leal
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(no subject)

Nov. 1st, 2007 | 05:25 am

(...)

quero lá saber do eu
ainda querer saber
de alguma coisa
parecida com a nossa
diferente da tua

a frase que aqui falta
é de vez em quando
se não te importas
dares pela minha falta.

Joaquim Castro Caldas
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divulgar

Oct. 2nd, 2007 | 02:15 am

há várias maneiras de começar o dia
quando acordo fumo um cigarro

coso silêncios à pele
num quarto inteiro de palavras vazias
que se repetem como rituais

durante semanas ensaiei regressos
apesar das paredes vazias
não deixo de fingir que não estou só


Maria Sousa
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#27

Aug. 26th, 2007 | 06:59 am
music: sigur rós, svo hljótt

É isto o meu aniversário.
Uma nova revisão das prioridades
e a mais que evidente
evidência
evidencia
a tua ausência.

E é só
só ela
que me traz o choro.

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.. e outro

Aug. 25th, 2007 | 05:58 am

a melancolia pode às vezes ser isto,
um modo de sobreviver ao vazio, o comovido
jeito de pôr a mão sobre o mármore da mesa
e pedir outro martini fresco
se faz favor


Manuel de Freitas
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mais um pequeno descuido

Aug. 25th, 2007 | 05:48 am

A minha intimidade é pequena
cabe na minha boca
e desliza por entre os dentes;

se a descubro a fingir que é saliva
engulo-a,
não quero vê-la alheia nas palavras
nem perdê-la com um beijo


Ana Merino

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encontrei um blog com coisas fixes #1

Aug. 6th, 2007 | 02:40 pm

'diz que não sabe do medo da morte do amor
diz que tem medo da morte do amor
diz que o amor é morte é medo
diz que a morte é medo é amor
diz que não sabe'

Alejandra Pizarnik
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poesia #3.

Jul. 11th, 2007 | 12:05 am
music: wreckless eric, whole wide world [stranger than fiction ost]

um homem com uma dor
é muito mais elegante
caminha assim de lado
como se chegando atrasado
andasse mais adiante
carrega o peso da dor
como se portasse medalhas
uma coroa um milhão de dólares
ou coisa que os valha
ópios édens analgésicos
não me toquem nessa dor
ela é tudo que me sobra
sofrer, vai ser minha última obra

paulo leminski
---

nunca fui gajo para gostar de poesia. suponho que a prosa me bastava, que as elaborações fictícias dos romances me chegavam e preenchiam. porém, ultimamente, tenho sido introduzido a coisas simplesmente arrebatadoras e tenho aprendido a pensar a poesia de forma diferente.
enfim, e depois, se é para se ser conas, há que sê-lo até ao fim.
e é verdade, este poema sou eu.
chapado.
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poesia #2: si tú me olvidas

Jun. 10th, 2007 | 07:01 am

Quiero que sepas
una cosa.

Tú sabes cómo es esto:
si miro
la luna de cristal, la rama roja
del lento otoño en mi ventana,
si toco
junto al fuego
la impalpable ceniza
o el arrugado cuerpo de la leña,
todo me lleva a ti,
como si todo lo que existe,
aromas, luz, metales,
fueran pequeños barcos que navegan
hacia las islas tuyas que me aguardan.

Ahora bien,
si poco a poco dejas de quererme
dejaré de quererte poco a poco.

Si de pronto
me olvidas
no me busques,
que ya te habré olvidado.

Si consideras largo y loco
el viento de banderas
que pasa por mi vida
y te decides
a dejarme a la orilla
del corazón en que tengo raíces,
piensa
que en ese día,
a esa hora
levantaré los brazos
y saldrán mis raíces
a buscar otra tierra.

Pero
si cada día,
cada hora
sientes que a mí estás destinada
con dulzura implacable.
Si cada día sube
una flor a tus labios a buscarme,
ay amor mío, ay mía,
en mí todo ese fuego se repite,
en mí nada se apaga ni se olvida,
mi amor se nutre de tu amor, amada,
y mientras vivas estará en tus brazos
sin salir de los míos.

---
Pablo Neruda

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poesia #1

May. 18th, 2007 | 02:43 pm

"Eles estavam deitados, e isto pode perceber-se,
Pode perceber-se tudo.
Pode perceber-se que ela desabotou a camisa e
Esfregou a boca e o rosto no peito dele

E esteve assim
Muito tempo, e nenhum deles falava.
E ela despiu-o, e depois despiu-se, e
Esfregou de novo a cara e a boca
Pelo corpo dele, e sentia-se só
No meio das trevas.

Estava cega.
Beijou-lhe o sexo devagar, e a boca tremia
Queria desaparecer, morrer,
Ou queria amar aquele homem
Como se isso fosse poder amar
De repente
O mundo todo, parar, parar.

E apertou entre os lábios o pénis
Devorou-o lentamente
Enchendo a boca com aquela coisa quente
E via, e isso dava-lhe um sombrio
E doce desejo de dormir.

E então ficou imóvel, somente a boca
Tremia, e isso
Quase podia ter um nome: paz
Que eu seja humilhada, pensou ela,
Humilhada,
E fechou os olhos, e abriu-os: a treva
sempre

E então ergueu a cabeça, subiu na cama
Até junto ao rosto dele
E disse-lhe ao ouvido puta
Chama-me puta
E ele disse puta
E ela voltou-se e pôs-se de joelhos
Na cama, dobrada,
E disse mete no cu.

E, se fechavam ou abriam os olhos,
Era treva.
Para ambos e para sempre.
Amavam o terror, um no outro,
Cada um o seu terror no outro.
Talvez pudesse morrer.”

Apresentação do rosto (1968), texto renegado por Herberto Helder
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