Ruído
Apr. 19th, 2009 | 07:53 am
music: bon iver, re: stacks
Vou odiar-te todos os dias da minha vida
Enquanto tiver força para tal.
E gostava apenas que conseguisses ouvir o som
que faço
que se faz ouvir
quando te odeio tantas noites seguidas
durante este tempo todo.
É assim um som brando, cadenciado
Um ruído quase imperceptível
que percorre todos os limites do meu corpo
E chega aos outros.
Eles sabem que o ouvem
Quando me tocam e eu lhes toco a eles.
Quando se apaixonam por mim
E eu
Por ti, uma e outra vez
Pela memória já desincorporada
Expropriada
que teima em não arredar daqui.
Eles não sabem que é por ti que se perdem
Pelo barulho que faz o asco
Este ranger rancoroso e furtivo.
E eu desprezo-os a eles
Ainda mais que a ti, por isso.
Quero que a vida te corra mal
Que te embebedes e não percebas porquê.
Que continues a chorar sozinha
Sempre que perceberes que ninguém vai ouvir.
Vais sempre saber que o teu amor
Estará seguro comigo.
Enquanto tiver força para tal.
E gostava apenas que conseguisses ouvir o som
que faço
que se faz ouvir
quando te odeio tantas noites seguidas
durante este tempo todo.
É assim um som brando, cadenciado
Um ruído quase imperceptível
que percorre todos os limites do meu corpo
E chega aos outros.
Eles sabem que o ouvem
Quando me tocam e eu lhes toco a eles.
Quando se apaixonam por mim
E eu
Por ti, uma e outra vez
Pela memória já desincorporada
Expropriada
que teima em não arredar daqui.
Eles não sabem que é por ti que se perdem
Pelo barulho que faz o asco
Este ranger rancoroso e furtivo.
E eu desprezo-os a eles
Ainda mais que a ti, por isso.
Quero que a vida te corra mal
Que te embebedes e não percebas porquê.
Que continues a chorar sozinha
Sempre que perceberes que ninguém vai ouvir.
Vais sempre saber que o teu amor
Estará seguro comigo.
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sem título
Jan. 14th, 2009 | 07:47 pm
Na outra noite estávamos os dois no carro. Nessa semana fiz o pleno ao levar-te a casa todos os dias. Parámos uma vez mais em frente à porta do edifício e ficámos os dois calados dentro do carro. Nessa noite, após teres entrado, cheia de frio, puseste o cinto, esfregaste as mãos e olhaste em frente. Sorriste, estavas feliz, mas não disseste nada até chegarmos. O plano em que paramos é inclinado, e quando te encostas no banco, posso imaginar-te deitada, mais descontraída. Como quando ficas no meu sofá depois de jantar. Ou no teu, em tua casa, onde nunca entrei. Mexes nas minhas mãos, procurando-lhe as palmas e o lado de dentro dos dedos. E depois os nós e as unhas, mexes-lhes enquanto chove muito do lado de fora do carro. Apertas-me os pulsos e deslizas os dedos para os meus antebraços. Gosto tanto da tua integridade e do teu sentido de justiça. Gosto tanto que sejas correcta e que faças sempre o mais merecido. Quase tanto como das tuas orelhas bicudas em cima. Disseste-me apenas que no dia seguinte era natal e que não me irias ver durante uma semana. Uma semana até poderes voltar a estar comigo em minha casa, da qual já tens a chave, e a tomar banho comigo. Enquanto me falavas, começaste a bater-me nas palmas das mãos com as tuas palmas das mãos, e afundaste o teu rosto na gola do casaco. Tens os olhos largos, tão castanhos e grandes. Começa a chover com mais força fora do carro e olhas para os cinco metros que te separam da porta de entrada. Não largas as mãos, ambas as minhas mãos. Ficaste ali até parar de chover, e depois ficaste mais um bocadinho. E depois alguém passou ao lado do carro com um chapéu-de-chuva e fechou-o à entrada do prédio. Gosto tanto de ti, e da tua necessidade de te questionares e ao teu dia quando estou em silêncio a ouvir-te. Enfiaste os dedos no trinco e abriste a porta ao frio ventoso e à chuva e saíste.
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#33, disavowal
Dec. 8th, 2008 | 05:23 am
Quando encontrei esta artimanha para te não deixar ir, percebi que te podia escrever de todas as formas, em todo o lado, em princípios e em fins, em todas as pessoas do mundo. Mas o amor é meu, já o era antes de ser teu também e mesmo depois, quando o desocupaste, ele continuou a ser minha pertença. Durante tanto tempo apeteceu-me escrever-te em todas as estórias, a fazer de todas as mulheres em que pensei, comigo ou longe de mim, com outro. Mesmo já sem a tua voz, localizei-te em todo o lado, sob todas as luzes, com diferentes cheiros. Foste todos estes actos, restrições, sintomas, sonhos, narrativas, vislumbres e imagens. Em boa verdade, podias ser quem quer que fosses, eras sempre minha, comigo sempre a compor-te. Foi esse o teu dote, a tua prerrogativa comigo.
Entretanto, é este o espaço onde tudo foi morrendo. Depois de te decompor diametralmente e te fazer desempenhar papeis acessórios, deixei-te na primeira noite de insónia em muito tempo.
Entretanto, é este o espaço onde tudo foi morrendo. Depois de te decompor diametralmente e te fazer desempenhar papeis acessórios, deixei-te na primeira noite de insónia em muito tempo.
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#32
Jul. 6th, 2008 | 09:09 pm
És a minha poesia mais difícil de parir, a minha única poesia de verdade. Digo-te isto de modo singelo, por te gostar tanto, de te precisar e da tua boca, que me irá sempre tardar. Tudo isto só mais uma vez. Dizer-to ameniza o meu silêncio, sem mágoa ou saudade, digo-o para que ele me passe a fazer companhia à mesa com a memória, e não mais me pese.
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#31, por onde caem os sonhos
Jun. 16th, 2008 | 02:42 am
Tentei negociar com o tempo o melhor que pude. Ele olhou-me de frente e disse-me numa voz cândida, disse-me que não podia fazer mais nada por mim. Apresentei-lhe os teus maiores argumentos, a verdade que te encerra, a de seres o amor da minha vida. Disse-lhe, a suar, que te iria fazer persistir dentro de mim enquanto tivesse a faculdade de incorporar ar e fazê-lo parte de mim.
A memória pegou-me na mão esquerda e festejou-a, com o rosto. Senti as lágrimas rasgarem-me a pele, à velocidade da gravidade e da dor que me causavam. Quando fechei os olhos para aguentar as lâminas todas de uma vez, a memória assombrou-me a pele do antebraço com arrepios e beijou-me os olhos. Disse-me que devia deixar com que te perdesses, que devia deixar de te dar este norte que não é o teu.
A memória é uma mulher e enternece-se comigo, por me ver a chorar de amor. O tempo não. O tempo mantém-se presente na divisão, presente na sua ubiquidade, inflexível e surdo. É ele quem me diz, em breves gestos, para te deixar ir, perder-te no intervalo entre a cama e a parede.
A memória pegou-me na mão esquerda e festejou-a, com o rosto. Senti as lágrimas rasgarem-me a pele, à velocidade da gravidade e da dor que me causavam. Quando fechei os olhos para aguentar as lâminas todas de uma vez, a memória assombrou-me a pele do antebraço com arrepios e beijou-me os olhos. Disse-me que devia deixar com que te perdesses, que devia deixar de te dar este norte que não é o teu.
A memória é uma mulher e enternece-se comigo, por me ver a chorar de amor. O tempo não. O tempo mantém-se presente na divisão, presente na sua ubiquidade, inflexível e surdo. É ele quem me diz, em breves gestos, para te deixar ir, perder-te no intervalo entre a cama e a parede.
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#30, indolência no trabalho
Jun. 6th, 2008 | 06:59 pm
Entardece aqui no gabinete, e eu sinto falta de te beijar na boca. Um sentimento particular, a falta de beijar a boca. Passam meses em que te beijo todo o contorno das orelhas, em que te sinto a dureza branda da cartilagem nos lábios e testo-lhe, devagar, a sensibilidade com os dentes. Passam minutos, meses, um manancial inconsequente de tempo, prazer alongado ao longo do teu rosto, das linhas que o definem pelo maxilar inferior. Sinto, nessas alturas, o verdadeiro vácuo que é afundar todo o meu saber nas bochechas que te arredondam a face, que ta prosam tão docemente. Prostro os lábios ao longo dos teus olhos, das esquinas do teu olhar fechado e pueril, pesado do cansaço do dia. Passo as minhas horas, as minhas noites, alongo e retardo o teu cheiro. É um desagradecimento que o corpo me impõe, e eu lhe imponho a ele: mesmo em dois sentidos tão próximos, poder conseguir cheirar-te a fundo mas, por muito que me aproxime, não alcançar o teu sabor.
Sinto tanta falta de te beijar na boca.
Deposito a minha ciência no teu queixo, ao cruzamento com os teus lábios, antes de os atentar. Prolongo a boca pelo teu pescoço, para sentir a diferença de superfície ao contacto com a pele, lábios, dentes e o segundo lábio, já ansioso, estremece e receia a entrega. É um lábio zeloso, o segundo. Zela pela integridade, pela constância, pela segurança que é não ter ainda acesso ao sabor. É que o segundo lábio é o último membro antes da língua, ela sim, já admitida, sôfrega, hemorrágica. O segundo lábio humedece, receoso, restringe-se em medo de amar, e é, de toda esta falange, o elemento com a tarefa mais ingrata.
A boca ergue-se à força do pescoço, e é o primeiro lábio que se deleita, tocando a adiposidade da tua boca, fina pela vida. Quando, finalmente, o segundo lábio chega, preparado, treinado, excitado, especialista e sente o calor vaporado da proximidade do teu interior, o seu intento é heróico. Recolher a tua boca ao ritmo do sabor com que me premeias é a última das instâncias da memória que percorro.
A tarde amadurece e esta temperatura é a do calor brando, macio, tenro do lado de dentro de ti.E faço isto para mim, para ti. Faço-me sentir falta de te beijar a boca, na boca. Da profunda imersão que me és quando te me permites.
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o que se quis manter: À Sabedoria
Apr. 19th, 2008 | 11:21 pm
Sabes, a verdadeira solidão configura-se depois de percebermos quem amamos. É uma solidão diferente, gasta de tanto escrita, um luto que nos acompanha lado a lado, o despropósito aceite como parte do que se sente. E todos os deliberados enganos a que me proponho só o são para me fazerem perceber o quão certo estou, e não me importo de com eles gastar o tempo até ti.
Mas olha, entretanto, podes levar os dias que trouxeste, que ainda nem sei o que fazer às foscas, mortiças madrugadas que a querença impôs.
Mas olha, entretanto, podes levar os dias que trouxeste, que ainda nem sei o que fazer às foscas, mortiças madrugadas que a querença impôs.
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#29 egotismos
Oct. 15th, 2007 | 01:29 am
music: radiohead, jigsaw falling into place
É mais o amor-repentista. Aquele amor desbocado que não consegue realmente dizer nada até as palavras lhe serem arrombadas pela emoção catastrófica. É o amor afásico, amor que escreve mas não consegue falar, amor não articulado. É um amor mistifório, continente mas limítrofe, incapaz de se assentar, pronunciar-se, dizer o que sente.
Ele senta-se e vejo-o nitidamente a tentar, a fazer um esforço para se contrariar. Do outro lado da mesa, em frente à chávena de café, contorce o cachecol, oprimindo-o entre as mãos, tentando espremer dele a força e a liberdade para me contar de si. De costas curvadas, vai me olhando de frente, nos olhos, num tom de apelo. Começo por lhe dizer que há um provérbio eslavo da galícia, muito citado por outros antes de mim, que diz que: «o que não contas à tua mulher, o que não contas ao teu amigo, conta-lo a um estranho, na estalagem.». Tento compreender este amor que se me depara neste dia, mais lucidamente que noutros no passado, enquanto enfim se dispõe a falar-me. ‘vejo-lhe e ouço-lhe as singularidades, sabe, e quero-a por todas elas’. Alar as palavras dos outros é um bom truque, digo-lhe, e peço-lhe que continue. O empregado passa por nós e age como se não visse aquele amor, erguendo-lhe despachadamente os utensílios e varrendo as migalhas por baixo destes, com um pano amarelo húmido igual ao que uso em casa. Depois da rápida tarefa, o empregado volta a pousar os objectos em cima da mesa. As pessoas passam e olham-me a mim e nunca àquele amor aparentemente obtuso. Ele empreende-se ‘antes de me ter tornado amor órfão, sentia ao desbarato, olhando a vida como quem chove sobre ela. Ousava-me muito pela reserva de amor que já possuía e que continuava a receber, era um amor fala-barato, um amor destravado, asneirento, pouco receoso do consequente.
Com a orfandade, levou-me a mudança a erguer muros ao exterior e negar qualquer esvaimento do interior, não fosse perder-se por aí, em ruas de quaisquer palavras menos reflectidas. Ruminava-me e ao o conteúdo dos meus quatro estômagos, até à exaustão. Eu, dantes usual consumidor das salivas alheias e pouco poupador da minha própria, via-me melindroso aos olhos de quem agora me olhava.
Reencontro-a a ela, pois, assim destituído, depois de a ter visto e conhecido ainda sem os olhos obscurecidos da descrença, então fanfarrão e pouco dado a percorrer mais caminho do que aquele que me convinha. Reencontro-a no final do verão, a uma própria versão mais autêntica, menos intermitente e narcoléptica, muito, muito mais formosa. De olhos muito maiores, se for possível. Surgida em encadeamento inexplicável de acontecimentos, e consciente de nunca a ter relegado, só me apercebi do quanto lhe tinha sentido a falta depois de a ter visto a mascar pastilha displicentemente, enquanto observava o desfile da avenida principal.
Coloquei-me ao seu lado, encostando-me nas fronteiras de metal ali colocadas para não incomodar os artistas desfilantes. Olhou-me ela para as mãos e tocou-lhes, frias e férreas, e coloquei-me por detrás dela, protegendo-a das intempéries, só para me sentir amor protector – só mais uma vez amor engrandecido, narcisado. E não me preocupei com o vazio de dentro, àquela hora. Só para ser amor contente, quase despreocupado. Sozinho na incerteza e na indecisão, inconcluso, mas só com medo de lhe sorrir a si, que não me conheço como sendo seu.’
Ele senta-se e vejo-o nitidamente a tentar, a fazer um esforço para se contrariar. Do outro lado da mesa, em frente à chávena de café, contorce o cachecol, oprimindo-o entre as mãos, tentando espremer dele a força e a liberdade para me contar de si. De costas curvadas, vai me olhando de frente, nos olhos, num tom de apelo. Começo por lhe dizer que há um provérbio eslavo da galícia, muito citado por outros antes de mim, que diz que: «o que não contas à tua mulher, o que não contas ao teu amigo, conta-lo a um estranho, na estalagem.». Tento compreender este amor que se me depara neste dia, mais lucidamente que noutros no passado, enquanto enfim se dispõe a falar-me. ‘vejo-lhe e ouço-lhe as singularidades, sabe, e quero-a por todas elas’. Alar as palavras dos outros é um bom truque, digo-lhe, e peço-lhe que continue. O empregado passa por nós e age como se não visse aquele amor, erguendo-lhe despachadamente os utensílios e varrendo as migalhas por baixo destes, com um pano amarelo húmido igual ao que uso em casa. Depois da rápida tarefa, o empregado volta a pousar os objectos em cima da mesa. As pessoas passam e olham-me a mim e nunca àquele amor aparentemente obtuso. Ele empreende-se ‘antes de me ter tornado amor órfão, sentia ao desbarato, olhando a vida como quem chove sobre ela. Ousava-me muito pela reserva de amor que já possuía e que continuava a receber, era um amor fala-barato, um amor destravado, asneirento, pouco receoso do consequente.
Com a orfandade, levou-me a mudança a erguer muros ao exterior e negar qualquer esvaimento do interior, não fosse perder-se por aí, em ruas de quaisquer palavras menos reflectidas. Ruminava-me e ao o conteúdo dos meus quatro estômagos, até à exaustão. Eu, dantes usual consumidor das salivas alheias e pouco poupador da minha própria, via-me melindroso aos olhos de quem agora me olhava.
Reencontro-a a ela, pois, assim destituído, depois de a ter visto e conhecido ainda sem os olhos obscurecidos da descrença, então fanfarrão e pouco dado a percorrer mais caminho do que aquele que me convinha. Reencontro-a no final do verão, a uma própria versão mais autêntica, menos intermitente e narcoléptica, muito, muito mais formosa. De olhos muito maiores, se for possível. Surgida em encadeamento inexplicável de acontecimentos, e consciente de nunca a ter relegado, só me apercebi do quanto lhe tinha sentido a falta depois de a ter visto a mascar pastilha displicentemente, enquanto observava o desfile da avenida principal.
Coloquei-me ao seu lado, encostando-me nas fronteiras de metal ali colocadas para não incomodar os artistas desfilantes. Olhou-me ela para as mãos e tocou-lhes, frias e férreas, e coloquei-me por detrás dela, protegendo-a das intempéries, só para me sentir amor protector – só mais uma vez amor engrandecido, narcisado. E não me preocupei com o vazio de dentro, àquela hora. Só para ser amor contente, quase despreocupado. Sozinho na incerteza e na indecisão, inconcluso, mas só com medo de lhe sorrir a si, que não me conheço como sendo seu.’
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#28, vai desejar um saco?
Sep. 8th, 2007 | 03:03 am
music: múm, winter (what we never were after all)
A Alexandra silva trabalha aos fins de semana numa caixa do pingo-doce, mais habitualmente a número cinco, embora já a tenha visto também na três e na quatro. Com cerca de vinte e dois, vinte e três anos, aproveitou porventura as suas (hipotéticas) correntes férias curriculares ou quem sabe a saída de alguma colega para ocupar o seu lugar ao longo de toda a semana, das sete às onze. Alexandra não tem mais de um metro e sessenta, possui uma tez muito clara – ainda que, quando nas últimas vezes a procurei para pagar as compras e me embalar naqueles olhos castanhos claros, me pareça ter ganho uma coloração muito mais exposta e que lhe fica bem muito pelo sorriso, agora ainda mais bonito e que ganha outro impacto de contraste com a pele morena -, e um cabelo comprido castanho escuro que usa sempre apanhado por uma multiplicidade imensa de ganchos, pelo menos enquanto trabalha. O cabelo, dá-me ideia, é muito liso e escorrer-lhe-á pelo rosto até talvez um palmo depois dos ombros. Usa normalmente uma pulseira de metal com cerca de um centímetro de largura, que lhe adorna o pulso esquerdo de aspecto invulgarmente robusto, e que se costuma estacionar na pele pouco pilosa, por cima da extremidade distal do cúbito, na apófise cubital. O nariz é-lhe pequeno, arredondado nos vértices nasais, assim como na ponta, mas não deixa de ser um elemento proeminente no seu rosto de traços bem definidos, latinos, mediterrânicos. Tem um pequeno sinal escuro justamente por baixo do olho direito, um pouco deslocado para fora, como se gosta, e os lábios são finos, mas muito bem delineados. Comummente sorridente, as minhas mais recentes idas às compras encontram no seu semblante quase sempre alguma apatia, que não sei precisar se esconde um ar triste ou apenas algum aborrecimento. É difícil dar alguma precisão à sua compleição física, dado que a encontro sempre por trás da mesa da caixa e o uniforme, que inclui um enorme colete verde-vivo, não lhe é muito generoso. Arriscaria afirmar, porém, que a robustez evidenciada no pulso e restante braço é coerente com o resto do seu corpo, que confere essa ideia de vigor geral. Alexandra não será nunca considerada obesa, a não ser, talvez, por ela própria, se padecer da aparente doença inata da autocrítica feminina, um flagelo pandémico do mundo moderno. Os ombros são largos, e a camisa branca indumentária normalmente aberta às três primeiras casas mostra as sólidas clavículas por baixo de uma camada de pele de cor uniforme, polvilhada por alguns sinais que se estendem, aleatoriamente e em número reduzido - três -, também pelo pescoço. Pelo menos enquanto trabalha não usa quaisquer fios, não pinta as unhas – que estão sempre curtas e com bom aspecto – e não usa anéis. Voltando ao encadeamento do tórax, o peito promete alguma esfericidade, mas eu arriscaria mais noutro formato, anguloso, como se a adiposidade generosa não a tivesse ainda penitenciado na idade e conservasse ainda aquele aspecto de seios de rapariga mais nova. Os olhos claros aplicam-lhe um certo ar de frivolidade, que atenua o seu porte, e foi apenas numa das últimas ocasiões que alcancei um pequeno vislumbre de uma alça do soutien, verde-seco claro de sofisticação, pragmática e funcionalidade estética. Foi também nesse dia em que – invulgarmente inquieta -, por se ter levantado e se dirigido a uma colega duas caixas à frente, reparei no seu calçado, nas suas pernas e nas suas nádegas. Calçava uns chinelos rasos castanhos já muito usados, o tornozelo acompanhava a solidez óssea que já antes me tinha evidenciado e as pernas consistentes pareceram-me curtas, embora harmoniosas com a sua altura. Alexandra usava nesse dia umas folgadas calças de sarja castanha que, não sendo transparentes, eram de um tecido fino e ofereciam, lucidamente, o formato da roupa interior (na cor coincidente) que emoldurava as já referidas porções de carne, libertando as deliciosamente redondas nádegas, que tinham um certo tempero africano, talvez demasiado temperadas para alguns. Não para mim. Hoje perguntou-me, inicialmente, e enquanto pousava os meus artigos em cima da mesa, quantos sacos de plástico ia querer. Respondi-lhe, intrépido, que me bastava apenas um. Passou-mo enquanto fazia deslizar as compras e começou a auxiliar-me a arrumar os ditos artigos, alimentícios na sua maioria. Eram a mais para apenas um saco. Passou-me o outro que tinha deixado no colo já de aparente prevenção, sorriu-me e disse-me que aquele era gratuito. Quis dizer-lhe tudo, que me agradava a sua candura, que nunca ousasse achar-se feia e que resistisse o mais possível a essa maleita auto-imposta caso algum dia se lha surgisse, que explanasse a sua voz de modo a poder ouvi-la construir frases com mais de cinco palavras e num léxico superior a vinte e cinco. Quis perguntar-lhe se ali trabalhava por indispensabilidade, para pagar os estudos, quais tinha, se os tinha, se não a importunava eu a tratar sempre por tu quando me atendia, se gostava daqueles vinhos que costumava levar, se gostava de sandes de chourição e dos bolos pré-preparados que habituava trazer-lhe à mesa, já que me sorria sempre quando os passava, ou ainda se seria por acaso aquela a marca de pasta de dentes que usava. Se tinha namorado, namorada, se os pais e os avós eram ainda vivos, a sua idade, se morava sozinha, se a eventual solidão do seu olhar era passageira, resultante de um traço de depressividade ou reactiva a um luto de ruptura – é que estar sozinho antes é absolutamente diferente de estar sozinho depois, o flagelo da solidão só se instala quando amamos e somos deixados. Se alguma vez ganhou alguma coisa ao longo da sua vida, um concurso de mérito ou de sorte, se lia ou era iletrada, se proliferava na futilidade, numa vida ignara ou se estendia e gostava de Dostoievski, Eça, Saramago, Garcia Marquez, Boris Vian, Kafka, Oscar Wilde, Thomas Mann e Philip Roth. Se era desinibida quando chupava o falo do parceiro em particular e perante a devassidão generalizada por toda a pele, ou se tomava sempre banho a seguir a fazer amor. Finalmente, com um saco em cada mão e com o rosto certamente ruborizado, inquiri-a se o total da factura me permitia o pagamento do estacionamento, ou me dava algum desconto. Voltou a sorrir, ternamente. Respondeu-me que as duas primeiras horas eram gratuitas.
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#27
Aug. 26th, 2007 | 06:59 am
music: sigur rós, svo hljótt
É isto o meu aniversário.
Uma nova revisão das prioridades
e a mais que evidente
evidência
evidencia
a tua ausência.
E é só
só ela
que me traz o choro.
Uma nova revisão das prioridades
e a mais que evidente
evidência
evidencia
a tua ausência.
E é só
só ela
que me traz o choro.
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#26, contacto.
Aug. 3rd, 2007 | 07:14 am
music: mogwai, new paths to helicon 1
há qualquer coisa naqueles beijos, naqueles contactos cutâneos que se estabelecem entre os dois casais de lábios que se leva a querer prolongá-los, indefinidamente. o registo mnésico detido não é, de todo, um visual, pelo que o permanecente urge termicamente, evocando a quentura dispersa sentida aquando do ósculo amoroso. aquele beijo, depois de iniciado, é difícil de se recusar, e quando a última película de pele está prestes a descolar, algo nos rins falha, o abdómen contrai e o tórax responde com novo impulso para a frente, em busca de novo ardor. sente-se a carne ser pressionada contra os ossos, o crânio baloiçar suspenso pelos trapézios aflitos, um lábio residente entre os dois alheios - as pálpebras cessam a sua actividade por dormência. isto acontece por demais comigo, quando o faço, e são apenas as vísceras as capazes de agarrar o instantâneo daquele beijo, entretanto abafado. sinto falta dele, já e desde há muito.
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#25, untitled #2.
Jul. 13th, 2007 | 05:01 am
music: vangelis, la petite fille de la mer.
assumir um amor nunca é fácil, sobretudo um que cresce devagar, ao sabor destoante do conforto dos beijos e dos ensejos de voracidade pela pele e cheiro do outro, no interior de um carro. não o é pela vontade de o devorar por dentro à bruta, semi-desvinculado no verbo da cópula, em harmonia no abraço subsequente à própria actividade afectiva. é-o pela verdade de que nunca somos as mesmas pessoas a amar quando o objecto amado é-nos tão grande e tudo-nada tão diferente dos outros. pelo novo que se ergue dentro de nós e que se estranha. e que agrada.
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#24, impertinências.
Apr. 29th, 2007 | 06:14 am
music: morphine, in spite of me
moro num segundo andar de um prédio que tem por baixo um café chamado ‘estrela da manhã’ - o nome mais desadequado possível para pessoas tão desinspiradas como são aquelas que o gerem. nas últimas semanas, mais particularmente nos dois últimos sábados, tenho chegado a casa por volta das seis da manhã, altura em que chega também o pasteleiro numa carrinha ford transit branca a gasóleo e deixa uma enorme travessa de plástico azul-escura com vários bolos, ainda quentes. ele chega sempre antes dos proprietários do café, e como moro numa zona calma, ficam ali depositados, à espera que o famigerado senhor fernando os recolha, quando finalmente chega para abrir o comércio. desço devagar as escadas, esgueiro-me pela porta e costumo sempre levar comigo dois: uma bola de berlim e uma merenda mista, que me sabem especialmente bem com um leite que deixo a amornar enquanto realizo a minha delinquência matutina. hoje, sendo a terceira madrugada de domingo consecutiva, e ameaçando cada vez mais a captura, percebi que a minha mente te rodeia sempre, enquanto espreito em redor. dias haveria em que virias dormir na minha cama, e comeríamos os dois os bolos, eu a merenda mista, tu a bola de berlim. ficarias com açúcar em redor da boca, pelo que terias de te lamber e passar o dedo indicador para tirar esse excesso, enquanto sorrias como uma criança.
ultimamente o amor ausenta-se mais às 6h07 da manhã de domingo. e eu aqui fico.
impertinências da madrugada.
ultimamente o amor ausenta-se mais às 6h07 da manhã de domingo. e eu aqui fico.
impertinências da madrugada.
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#23, i can handle a lot.
Apr. 24th, 2007 | 03:50 am
music: rogue wave, eyes
a pequena sofia começa por abrir a boca em pequenos gemidos, imperceptíveis aos ouvidos dos pais que se perderam no sono solto, embrenhados no cansaço dos dias seguidos. a pequena sofia tem visto, às escondidas dos pais, os filmes de terror que o primo traz para casa, dos quais diz não ter medo, os quais observa activamente, ao detalhe. a pequena sofia, durante a tarde, viu um cão enorme aproximar-se dela com os olhos raiados de sangue e com as beiças descaídas, amolecidas em baba. mergulhada na almofada, abre os olhos num rasgo, separando as pálpebras de cima e de baixo num único movimento brusco, as pupilas dilatadas. grita pela mãe e pelo pai, que o cão vem aí, que não sai de cima dela. a mãe entra pelo quarto assustada, diz-lhe que não há cão nenhum, atormentada que vive pelos já recorrentes terrores nocturnos. ‘não há cão, sofia, a mãe está aqui’, a pequena sofia ouve mas não vê e, sentada na cama, aponta para a direita, para o canto mais distante do quarto, onde as duas paredes se encontram numa coluna orfã da divisão antiga. inquieta, o corpo suado do verão, do pânico frio na pele e do terror sanguíneo no coração, o cabelo ensopado na testa e na nuca. as mãos agarram os lençóis com força, arrancando-os das dobras e desfazendo o envelope algumas horas antes ajeitado pela mãe. sofia chora de genuíno terror aflitivo, olhos negros recusadores da infância, pupilas dilatadas em esforço máximo. ‘pai, olha o cão!’. o pai regressa da cozinha, de gémeos doridos dos quilómetros percorridos, segurando a colher de pau brasileira tamanho-família que enfeita a cozinha, elemento de discórdia conjugal, oferecida pela sogra no dia do casamento: ‘onde está esse cão?! – eu dou cabo dele!’, deslocando-se ao famigerado canto e partindo a colher de pau em golpes repetidos à coluna, ‘não penses tu que voltas aqui!’. a pequena sofia detém-se, o arquejamento estaca, apenas o suor lhe escorre pelo rosto, lentamente, da tempera ao queixo. lentamente os dedos soltam os lençóis, o rosto aponta o pai, as pupilas contraem um pouco. a pequena sofia chora. chora de alívio, esticando os braços ao pai, que a ergue e a recebe no colo. as pupilas dilatam. ‘o pai deu uma palmada àquele cão mau e ele fugiu. não volta cá mais’. a pequena sofia adormece ao colo do pai, sob o olhar plácido da mãe, que aproveita a aberta para recolher os pedaços da madeira oca, ‘terias, mais tarde ou mais cedo, de arranjar maneira de partir o raio da colher.’
sofia dorme. respira gradualmente mais rápido pelo nariz. aos poucos os lábios descolam a finíssima película de pele que quase formam, soltando pequenos sons, garatujas verbais. ‘o cão’, diz baixinho, entre pequenos ânimos, ‘não quero aqui o cão’. sofia abre os olhos num rasgo, separando as pálpebras de cima e de baixo num único movimento brusco, as pupilas dilatadas. olhos negros. a camisa de dormir estende-se branca, em algodão ligeiro, colada ao corpo, da temperatura corporal alta, magnetizante.
sofia acorda. levanta-se da cama, percorre trôpega e descalça o corredor até à cozinha, as pupilas contraem pela ameaça da luz exterior da noite. abre a porta do frigorífico com a mão direita, que a esquerda coça o nariz e o rosto. ‘porque bebes leite a esta hora?’ – pergunta-lhe a nova figura que entra na cozinha, despido a rigor - ‘é a única coisa que há fresca, esqueci-me de pôr a água aqui dentro’, responde-lhe de costas, iluminada pela luz frigorífica. ele retira uma caneca tamanho-família do armário e estende-lha, enquanto ela bebe do pacote. sofia olha-o nos olhos quando desfaz o gesto de beber. pupilas dilatadas. ‘falavas de um cão enquanto estavas a dormir’, ‘que cão é esse?’. ‘oh, não há cão. há colher de pau’.
sofia dorme. respira gradualmente mais rápido pelo nariz. aos poucos os lábios descolam a finíssima película de pele que quase formam, soltando pequenos sons, garatujas verbais. ‘o cão’, diz baixinho, entre pequenos ânimos, ‘não quero aqui o cão’. sofia abre os olhos num rasgo, separando as pálpebras de cima e de baixo num único movimento brusco, as pupilas dilatadas. olhos negros. a camisa de dormir estende-se branca, em algodão ligeiro, colada ao corpo, da temperatura corporal alta, magnetizante.
sofia acorda. levanta-se da cama, percorre trôpega e descalça o corredor até à cozinha, as pupilas contraem pela ameaça da luz exterior da noite. abre a porta do frigorífico com a mão direita, que a esquerda coça o nariz e o rosto. ‘porque bebes leite a esta hora?’ – pergunta-lhe a nova figura que entra na cozinha, despido a rigor - ‘é a única coisa que há fresca, esqueci-me de pôr a água aqui dentro’, responde-lhe de costas, iluminada pela luz frigorífica. ele retira uma caneca tamanho-família do armário e estende-lha, enquanto ela bebe do pacote. sofia olha-o nos olhos quando desfaz o gesto de beber. pupilas dilatadas. ‘falavas de um cão enquanto estavas a dormir’, ‘que cão é esse?’. ‘oh, não há cão. há colher de pau’.
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#22, a gaja ao quadrado.
Feb. 25th, 2007 | 05:40 am
music: shannon wright, everybody's got their own part to play
Daqui a dois anos, o telemóvel avisa a mensagem segundos antes de ela entrar no carro. Deixo-o ficar no compartimento à frente do isqueiro e do travão de mão, por baixo dos botões do climatizador, vulgo sofagem. Deixo-a agarrar-me o pescoço, roçar o rosto no meu e queixar-se da fase dos três dias sem lâmina de barbear. Digo-lhe que a farei quando chegar a casa, enquanto desaperto o cinto de segurança e o faço passar por entre nós, antecipando o meu beijo e o abraço dela. Passamos alguns minutos de beijos e de actualizações rotineiras, de conforto mútuo. Amanhã vamos finalmente em viagem ao Gerês, concretizando a expectativa que tenho de lá ir há já uns anos, e sinto-me contente por serem estas as condições em que enfim irei.
Seguimos para casa dela e é ela que leva a maior parte das malas para cima, enquanto fico para trás a dizer-lhe que posso levar algumas. ‘és uma lesma, demoras sempre imenso tempo e não estou para isso. Traz a minha mala’ ao que me conformo e sigo atrás, apenas com uma mochila e a dita mala feminina. ‘que bela imagem de democracia de valores’, digo-lhe, ‘não sejas hipócrita e despacha-te que eu deixei a chave do prédio aí dentro’. Entramos, subimos as escadas até ao segundo andar pelos elevadores estarem – de novo – ambos avariados e entramos em casa.
Pousamos as coisas à entrada do corredor, no chão. ‘amanhã levantas-te tu mais cedo e vais ver o óleo e a água do carro. Sou sempre eu a tratar dessas merdas e estou saturada, já é altura de seres homenzinho e fazeres as coisas que te competem’. Ela dirige-se à casa de banho e depois à cozinha, tirando-me a garrafa de água da boca. Dá-me um abraço de bicos de pés e deixa-se assim ficar, por alguns segundos, com a cabeça encostada ao meu ombro, enquanto bebe a água. O gato surge-nos nas pernas, pachorrento da velhice, de olhos ainda pesados, de dorso contraído e lançando uma pata de cada vez em espreguiçamento. Ela recebe-o, de cócoras e deixa-se ficar de volta dele a festejá-lo, a pôr-lhe comida, dizendo-lhe que o vai deixar ao cuidado da vizinha de cima por três dias mas, que ‘verás que nem dás pela falta, ela vem cá e brinca contigo’.
Enquanto observo como a cerimónia ao felino decorre, lembro-me que deixei o telemóvel no carro e digo-lhe que descerei para buscá-lo. ‘está à vista e alguém ainda me parte o vidro só por aquilo’. Ela diz-me para me despachar e desço ligeiro pelo vão das escadas, dobrando a entrada do prédio. Abro o carro e estendo-me para retirá-lo. Recordo a mensagem escrita e desbloqueio o teclado. A mensagem diz, finalmente: ‘ainda pensas em mim?’. Enquanto subo as escadas, degrau a degrau, respondo. ‘sim, todos os dias.’
Seguimos para casa dela e é ela que leva a maior parte das malas para cima, enquanto fico para trás a dizer-lhe que posso levar algumas. ‘és uma lesma, demoras sempre imenso tempo e não estou para isso. Traz a minha mala’ ao que me conformo e sigo atrás, apenas com uma mochila e a dita mala feminina. ‘que bela imagem de democracia de valores’, digo-lhe, ‘não sejas hipócrita e despacha-te que eu deixei a chave do prédio aí dentro’. Entramos, subimos as escadas até ao segundo andar pelos elevadores estarem – de novo – ambos avariados e entramos em casa.
Pousamos as coisas à entrada do corredor, no chão. ‘amanhã levantas-te tu mais cedo e vais ver o óleo e a água do carro. Sou sempre eu a tratar dessas merdas e estou saturada, já é altura de seres homenzinho e fazeres as coisas que te competem’. Ela dirige-se à casa de banho e depois à cozinha, tirando-me a garrafa de água da boca. Dá-me um abraço de bicos de pés e deixa-se assim ficar, por alguns segundos, com a cabeça encostada ao meu ombro, enquanto bebe a água. O gato surge-nos nas pernas, pachorrento da velhice, de olhos ainda pesados, de dorso contraído e lançando uma pata de cada vez em espreguiçamento. Ela recebe-o, de cócoras e deixa-se ficar de volta dele a festejá-lo, a pôr-lhe comida, dizendo-lhe que o vai deixar ao cuidado da vizinha de cima por três dias mas, que ‘verás que nem dás pela falta, ela vem cá e brinca contigo’.
Enquanto observo como a cerimónia ao felino decorre, lembro-me que deixei o telemóvel no carro e digo-lhe que descerei para buscá-lo. ‘está à vista e alguém ainda me parte o vidro só por aquilo’. Ela diz-me para me despachar e desço ligeiro pelo vão das escadas, dobrando a entrada do prédio. Abro o carro e estendo-me para retirá-lo. Recordo a mensagem escrita e desbloqueio o teclado. A mensagem diz, finalmente: ‘ainda pensas em mim?’. Enquanto subo as escadas, degrau a degrau, respondo. ‘sim, todos os dias.’
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#21, canvas.
Jan. 16th, 2007 | 03:50 am
music: rufus wainwright
pedro desenha o seu pensamento costumeiro de seguir em frente, de passar as cores pastel de cicatrização por cima das pulsões vermelhas, de criar pequenos relevos nas camadas de tinta com uma navalha antiga que mantém ao lado do canvas. sentado na esplanada de um café, assiste à retirada do amigo a quem tinha ido fazer companhia, antes deste pegar ao serviço que é no restaurante do outro lado da avenida. observa-o enquanto este pega na mochila, enrola o cachecol, e corre para apanhar o semáforo pedestre ainda verde. acende mais um cigarro quando a empregada surge para recolher as chávenas de café, à qual paga, e a qual lhe retribuiu com um sorriso plácido de fim de tarde invernal. aquele sorriso lembra-lhe um outro, o da rapariga que o atendeu alguns dias antes, quando passou pelos correios para enviar os postais de natal. foram três esse ano, mais dois a somar ao habitual à tia do porto, gémea da sua mãe até na caligrafia com que enchia as cartas que lhe escrevia. depois da morte da progenitora, pedro assistiu à mudança de tom nas cartas que recebia da tia, um tom de pesar depressivo acompanhado de uma urgência maior, a disponibilidade desamparada de quem quer oferecer algo a alguém que perdeu. amolecia-o aquelas frases familiares de uma infância passada só com mulheres que o obrigavam a usar a camisa apertada até ao último botão, o do colarinho. não estava muita gente na delegação dos correios nesse dia, e a rapariga atendeu-o com especial atenção. ela tinha percebido que um dos postais estava especialmente preenchido, e o espaço para o selo era reduzido, pelo que esteve vários minutos a percorrer alguns livros de selos até encontrar o mais adequado à lacuna branca:
– não te dês a tanto trabalho, a mensagem é clara e não é por uma palavra a menos que se perde.
– não se preocupe, não é trabalho algum!
– tudo bem, agradeço-to então.
a rapariga lia explicitamente o conteúdo do postal, enquanto se ocupava da busca, mas isso não o incomodou.
– não o incomoda que possam ler o que escreve em postais destes?
– teria motivo para tal? – acho que não tenho porque recear que mo leias.
o postal estava cheio de desenhos de cicatrização, corados a pastel, disfarçando o vermelho que já tinha começado a secar. a cadeira de metal fez barulho ao ser arrastada pelo soalho da esplanada, num gesto contínuo com a extinção do cigarro no pequeno cinzeiro de vidro verde-escuro. pedro levanta-se, pega na sua própria mochila e cachecol, faz deslizar o gorro pelo cabelo até deixar as suíças que espiam de fora à volta das orelhas, e desce do soalho para a calçada. sobe a avenida, até à banca dos jornais e compra mais um maço de cigarros, a caminho da estação do metropolitano, até casa.
nessa noite, no bar do costume, à conversa com a rapariga do costume, a dos sábados, sempre a mesma desculpa para sair de casa – até quando ameaçado por paisagens de influenza –, estranha a premência naquele gesto típico nela de enrolar o cabelo liso em pequenos canudos. fazia-o sem conseguir disfarçar alguma ansiedade vigilante que por ali andava.
– que se passa? só costumas mexer no cabelo quando estás mais descontraída.
– estou a tentar deixar de fumar.
– e porquê?
– porque quero ter filhos.
pedro estica-se e, aos olhos atentos e castanhos, alcança o casaco deixado ao fundo do divã. revira-o e retira de dentro do bolso interior esquerdo, por entre os botões suplentes ainda dentro do pequeno saco de plástico, um pequeno nariz de palhaço.
– comprei-o há duas semanas e ainda não o deixei em casa. às vezes lembro-me dele e ponho-o quando estou a conduzir sozinho. sempre me divirto com as expressões no rosto das pessoas quando mo vêem e estou a fumar, ou com uma expressão normalíssima. noutras vezes, aperto o botão do colarinho da camisa, o que parece ter um efeito ainda mais bizarro. a minha mãe é que insistia que o apertasse quando era míudo. eu fingia que asfixiava. enfim, ando a passar mesmo muito tempo sozinho. um tipo definha.
nessa noite, antes de ela adormecer, acompanhando uma diminuição do ritmo respiratório visível apenas ao olho treinado, pedro apercebia-se do corpo que declarava um ligeiro espasmo de entrada no sono. a indolência perfeita de quem ressona, e maria fazia-o, sonoramente. esboçava um pequeno sorriso na boca semi-aberta.
– não te dês a tanto trabalho, a mensagem é clara e não é por uma palavra a menos que se perde.
– não se preocupe, não é trabalho algum!
– tudo bem, agradeço-to então.
a rapariga lia explicitamente o conteúdo do postal, enquanto se ocupava da busca, mas isso não o incomodou.
– não o incomoda que possam ler o que escreve em postais destes?
– teria motivo para tal? – acho que não tenho porque recear que mo leias.
o postal estava cheio de desenhos de cicatrização, corados a pastel, disfarçando o vermelho que já tinha começado a secar. a cadeira de metal fez barulho ao ser arrastada pelo soalho da esplanada, num gesto contínuo com a extinção do cigarro no pequeno cinzeiro de vidro verde-escuro. pedro levanta-se, pega na sua própria mochila e cachecol, faz deslizar o gorro pelo cabelo até deixar as suíças que espiam de fora à volta das orelhas, e desce do soalho para a calçada. sobe a avenida, até à banca dos jornais e compra mais um maço de cigarros, a caminho da estação do metropolitano, até casa.
nessa noite, no bar do costume, à conversa com a rapariga do costume, a dos sábados, sempre a mesma desculpa para sair de casa – até quando ameaçado por paisagens de influenza –, estranha a premência naquele gesto típico nela de enrolar o cabelo liso em pequenos canudos. fazia-o sem conseguir disfarçar alguma ansiedade vigilante que por ali andava.
– que se passa? só costumas mexer no cabelo quando estás mais descontraída.
– estou a tentar deixar de fumar.
– e porquê?
– porque quero ter filhos.
pedro estica-se e, aos olhos atentos e castanhos, alcança o casaco deixado ao fundo do divã. revira-o e retira de dentro do bolso interior esquerdo, por entre os botões suplentes ainda dentro do pequeno saco de plástico, um pequeno nariz de palhaço.
– comprei-o há duas semanas e ainda não o deixei em casa. às vezes lembro-me dele e ponho-o quando estou a conduzir sozinho. sempre me divirto com as expressões no rosto das pessoas quando mo vêem e estou a fumar, ou com uma expressão normalíssima. noutras vezes, aperto o botão do colarinho da camisa, o que parece ter um efeito ainda mais bizarro. a minha mãe é que insistia que o apertasse quando era míudo. eu fingia que asfixiava. enfim, ando a passar mesmo muito tempo sozinho. um tipo definha.
nessa noite, antes de ela adormecer, acompanhando uma diminuição do ritmo respiratório visível apenas ao olho treinado, pedro apercebia-se do corpo que declarava um ligeiro espasmo de entrada no sono. a indolência perfeita de quem ressona, e maria fazia-o, sonoramente. esboçava um pequeno sorriso na boca semi-aberta.
is true love a trip to chinatown
or being held in one's opium gaze
under the peach trees
there i'll sit and wait
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'reformar-nos-emos e escreveremos má poesia.'
Jan. 1st, 2007 | 06:27 am
music: trespassers william, different stars
não há ninguém esta noite
ninguém censura a passagem pelo semáforo
as lojas têm fechadas a chave na porta
em casa a entrada é permitida
os quartos vazios, as camas feitas
os candeeiros das avenidas deixados ligados.
ninguém se senta no meio da avenida
ninguém dorme
ninguém fica acordado
ninguém trabalha, ninguém descansa
ninguém procura ou encontra
ninguém anda.
a ausência de luz anula o vento
que proíbe o calor
que invalida o crescimento, a cadência das coisas
que cancelam o que se sente
que se esquiva a mim.
ninguém censura a passagem pelo semáforo
as lojas têm fechadas a chave na porta
em casa a entrada é permitida
os quartos vazios, as camas feitas
os candeeiros das avenidas deixados ligados.
ninguém se senta no meio da avenida
ninguém dorme
ninguém fica acordado
ninguém trabalha, ninguém descansa
ninguém procura ou encontra
ninguém anda.
a ausência de luz anula o vento
que proíbe o calor
que invalida o crescimento, a cadência das coisas
que cancelam o que se sente
que se esquiva a mim.
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#20, d-4.
Nov. 12th, 2006 | 04:06 am
music: cocorosie, noah's ark
d-4 é um nome estranho para uma rapariga, mas a estranheza parece ter sido um vinculo estabelecido prematuramente. talvez desde a relação que lhe deu fruto à maneira como nasceu. e que parto foi. d-4 nasceu de olhos bem abertos, esperando em silêncio finalmente encontrar o pai. só o pai, que com a mãe mantinha uma relação estreita já desde a gestação, mais do que o saco amniótico faria supôr. como um único ouvido indiferenciado com batimento cardíaco, d-4 habituara-se a ouvir os desabafos da mãe descontente, predizendo as profecias que acabaria por auto-realizar. foi assim que d-4 se tornou estranha, tomando muito precocemente consciência de que o amor não existia para aqueles que o procuravam. mas voltemos ao parto. se é certo que os olhos se mantêm com o mesmo volume do dia natal até à morte, estes olhos sempre foram maiores e mais pesados do que quaisquer outros que este país já viu. olhos verdes, insaciados, insatisfeitos, enfadados. como se lhe fosse fardo ver o mundo acontecer. havia unicamente um estímulo à persistência da vida, as viagens de carro com o pai pela savana, pelo cheiro da terra-mãe africana. de tenra idade, e só para surpresa dos mais desatentos, d-4 revelara-se poetisa intensa. o pai lera-lhe em pequena todos os grandes, e os olhos da menina brilhavam com a morte encomendada por florbela espanca às palavras. já por lisboa, viria a tornar-se menina-rapaz, cobrindo os olhos subjugantes com uma armação do tamanho do rosto, t-shirts largas e adereços o mais fugitivos à estética feminina que encontrava. d-4 retardou o mais possível a sua realidade pulsional e hormonal, por tanto tempo, que tornou impossível a explosão de volúpia no momento derradeiro. tornara-se mulher, mulher de peito pequeno, cintura estreita, rabo grande, pulsos finos, pele dourada, cabelos negros, finos e curtos, olhos enfadados. verdes. d-4 tapa a pele com negro, a acromaticidade contem-na e evita-a de invadir o coração de quem a vê passar na rua. mulher de dia para a noite, rende-se apenas ao pai para as festas no rosto, é o pai que ama. homem algum tomaria aquele lugar. quando conheci d-4, não demorei muito a apaixonar-me. foi mais um pedra preciosa lançada ao mississipi que tive oportunidade de conhecer durante ano e meio. nunca a consumei, e, ainda nesta altura, depois de ter olhado de frente e de costas o meu amor e a vida, sonho-a com frequência semanal. costuma ser à terça ou à quarta, e recebo-a sempre bem – nua e de olhos pintados. um rosto moreno, negro e verde. porque nunca te falei dela? – porque momentos destes não se partilham ou admitem, nem aos melhores amigos, nem aos psicoterapeutas, nem a nós próprios. prefiro as terças ou as quartas.
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#18, uma da manhã.
Oct. 29th, 2006 | 03:56 am
music: the radio dept., the worst taste in music (extended)
gosto da sensação que fica quando penso que, daí a sessenta minutos, o tempo não andou para a frente. à uma hora será de novo à uma hora. por um pouco apenas, imagina-se que esta hora não existe, e que se perde nalgum tipo de entropia no tempo. durante essa hora fazer as coisas todas. e depois nenhumas. porque depois é uma hora outra vez. o suor evaporou, a célula não degenerou, a ferida não chegou a sangrar. não se sentiu a falta de ninguém durante aqueles minutos. por uma vigésima quarta parte de um dia, nem se chega a morrer. fez-se a vida toda e não contou para nada. nada mudou nesse período, apenas uma ténue sensação de tempo. é uma hora outra vez.
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#17, avenida marechal gomes da costa.
Oct. 9th, 2006 | 03:47 am
- conta-me o teu dia.
- o meu dia?! – não estás a fazer sentido!
- sim, temos de ficar à espera da ambulância, por isso conta-me o que fizeste hoje.
tiago estava deitado no alcatrão, depois de ter sido projectado alguns metros para a frente do carro. o alcatrão estava ainda quente pelo dia tórrido e haviam pedaços de vidro grosso do pára-brisas ao lado, que brilhavam no chão escuro. tiago sentia-os e pegava-lhes com a ponta dos dedos, mas não ousava levantar a cabeça para ver como eram. o pânico de não saber se conseguiria fazê-lo mantinha-o paralisado e o seu eu franzino receava pelo pior. o cabelo comprido castanho escuro estava já um pouco empapado de sangue e tiago sentia-o escorrer devagar, entre os cabelos. nuno tinha estacionado o carro em cima do passeio em frente ao cruzamento e ambos esperavam que a ambulância chegasse, tinham dito que demoravam dez minutos. o último tinha assistido a tudo parado atrás do semáforo transversal. era de madrugada, precisamente à hora já demasiado tardia e não ainda suficientemente vespertina. o condutor do carro tinha fugido, provavelmente ainda mais apavorado do que estava tiago. mais um não-lugar urbano: o trânsito era nulo, ninguém passava ali.
- não consigo contar-te nada. 'tou fodido. não consigo pensar. só penso na minha mãe e no meu pai.
- pensar consegues. queres que te conte alguma coisa? – queres tu saber o meu dia?
- não. não sei. conta.
- acabei hoje com a minha namorada.
tiago virou os olhos na direcção do interlocutor.
- porquê?
- pá, tive preso durante um ano. já não sabia mais o que fazer. a verdade é que andava há imenso tempo a lembrar-me de outras relações e não acho que faça sentido pensar em como já fui se não fosse por achar que estou pior.
- como eram elas?
- elas?
- sim, as outras namoradas que tiveste.
- mas que queres que te conte?
- não sei. qualquer coisa. seja o que for. conta-me nisso que tens pensado.
tiago mexia com um pedaço de vidro do comprimento e grossura de um baralho de cartas.
- bom, tudo bem. uma das primeiras gajas tinha a pancada dos ursos de peluche e tinha um imenso número deles no quarto. havia-os por todo o lado: nas prateleiras seguravam livros, enfeitavam cadeiras, na secretária havia um que segurava uma lata de alumínio para as canetas e lápis. na cama era como se houvesse uma explosão de pelúcia castanha e bege, e em cima do roupeiro estavam os mais velhotes e aqueles de que ela não gostava tanto. havia uma outra tocava violino no quarto, sempre virada para um espelho grande que lá tinha, com a língua de fora.
- com a língua de fora?
- sim, enrolada. sabes como faz o cristiano ronaldo quando está a fintar?
- sei.
- andei também com uma filha de um farmacêutico que tinha os apontamentos da faculdade cheios de post-its coloridos de propaganda médica. pequenos papelinhos que diziam xanax, atarax, ben-u-ron, antigripine, aspegic, aspirina, etc. mas não ficava por aí. tinha também imensos objectos meio inúteis do género de pisa-papéis, pequenas bolas saltitantes, porta-chaves, lápis, canetas e estojos com as marcas registadas impressas. era meio drunfada, o que me fazia pensar que aquela relação com aqueles medicamentos todos era ainda mais sinistra.
tiago tenta mexer os dedos dos pés. consegue e suspira de alívio. nuno está atento.
- outra, de olhos pretos, caminhava como sempre imaginei que o pato donald, o tio patinhas, a margarida e o gastão o fizessem: um andar atrapalhado, como se os pés lhe fossem rígidos, sabes, assim como pequenas placas de madeira rectangulares, e o passo era dado a dois tempos – primeiro o calcanhar e logo de seguida o resto da sola batia no solo. essa pedia-me várias vezes para trocarmos de roupa em locais públicos e darmos uma volta assim vestidos - pelo menos com as coisas que eu conseguia vestir. enfim. bom, depois, e durante algum tempo, houve uma rapariga que era tradutora. falava do modo mais eloquente que já ouvi alguém falar. chegava a rir com aquilo. foi a única pessoa que conheci até hoje que usava as palavras ‘enternecedor’, ‘deveras’ ou ‘luxuriante’ como elementos constituintes de uma qualquer frase simples, isto já para não falar do uso abusivo dos advérbios de modo. não me opunha nada a isso, até porque acho piada a ouvir as palavras que estou apenas habituado a encontrar em livros reproduzidas pela voz. sabes, é como se pudesse confirmar que afinal é mesmo assim que se diz. acho que foi ela que me pegou o vício que tenho de abusar dos advérbios de modo quando quero falar assim de uma maneira mais articulada.
- acho que também faço isso.
- uma outra ainda, que tinha um metro e noventa de altura, beijava de língua receosa, porque o freio não lhe permitia estender a língua muito mais do que meio centímetro fora da boca. era bastante parecida comigo, mas não durou muito tempo. coisa de um mês. agora vive em espanha.
- que idade é que tu tens?
- vinte e cinco. olha, a ambulância já aí vem.
- vens ter comigo ao hospital?
- sim, não te preocupes com isso.
- o meu dia?! – não estás a fazer sentido!
- sim, temos de ficar à espera da ambulância, por isso conta-me o que fizeste hoje.
tiago estava deitado no alcatrão, depois de ter sido projectado alguns metros para a frente do carro. o alcatrão estava ainda quente pelo dia tórrido e haviam pedaços de vidro grosso do pára-brisas ao lado, que brilhavam no chão escuro. tiago sentia-os e pegava-lhes com a ponta dos dedos, mas não ousava levantar a cabeça para ver como eram. o pânico de não saber se conseguiria fazê-lo mantinha-o paralisado e o seu eu franzino receava pelo pior. o cabelo comprido castanho escuro estava já um pouco empapado de sangue e tiago sentia-o escorrer devagar, entre os cabelos. nuno tinha estacionado o carro em cima do passeio em frente ao cruzamento e ambos esperavam que a ambulância chegasse, tinham dito que demoravam dez minutos. o último tinha assistido a tudo parado atrás do semáforo transversal. era de madrugada, precisamente à hora já demasiado tardia e não ainda suficientemente vespertina. o condutor do carro tinha fugido, provavelmente ainda mais apavorado do que estava tiago. mais um não-lugar urbano: o trânsito era nulo, ninguém passava ali.
- não consigo contar-te nada. 'tou fodido. não consigo pensar. só penso na minha mãe e no meu pai.
- pensar consegues. queres que te conte alguma coisa? – queres tu saber o meu dia?
- não. não sei. conta.
- acabei hoje com a minha namorada.
tiago virou os olhos na direcção do interlocutor.
- porquê?
- pá, tive preso durante um ano. já não sabia mais o que fazer. a verdade é que andava há imenso tempo a lembrar-me de outras relações e não acho que faça sentido pensar em como já fui se não fosse por achar que estou pior.
- como eram elas?
- elas?
- sim, as outras namoradas que tiveste.
- mas que queres que te conte?
- não sei. qualquer coisa. seja o que for. conta-me nisso que tens pensado.
tiago mexia com um pedaço de vidro do comprimento e grossura de um baralho de cartas.
- bom, tudo bem. uma das primeiras gajas tinha a pancada dos ursos de peluche e tinha um imenso número deles no quarto. havia-os por todo o lado: nas prateleiras seguravam livros, enfeitavam cadeiras, na secretária havia um que segurava uma lata de alumínio para as canetas e lápis. na cama era como se houvesse uma explosão de pelúcia castanha e bege, e em cima do roupeiro estavam os mais velhotes e aqueles de que ela não gostava tanto. havia uma outra tocava violino no quarto, sempre virada para um espelho grande que lá tinha, com a língua de fora.
- com a língua de fora?
- sim, enrolada. sabes como faz o cristiano ronaldo quando está a fintar?
- sei.
- andei também com uma filha de um farmacêutico que tinha os apontamentos da faculdade cheios de post-its coloridos de propaganda médica. pequenos papelinhos que diziam xanax, atarax, ben-u-ron, antigripine, aspegic, aspirina, etc. mas não ficava por aí. tinha também imensos objectos meio inúteis do género de pisa-papéis, pequenas bolas saltitantes, porta-chaves, lápis, canetas e estojos com as marcas registadas impressas. era meio drunfada, o que me fazia pensar que aquela relação com aqueles medicamentos todos era ainda mais sinistra.
tiago tenta mexer os dedos dos pés. consegue e suspira de alívio. nuno está atento.
- outra, de olhos pretos, caminhava como sempre imaginei que o pato donald, o tio patinhas, a margarida e o gastão o fizessem: um andar atrapalhado, como se os pés lhe fossem rígidos, sabes, assim como pequenas placas de madeira rectangulares, e o passo era dado a dois tempos – primeiro o calcanhar e logo de seguida o resto da sola batia no solo. essa pedia-me várias vezes para trocarmos de roupa em locais públicos e darmos uma volta assim vestidos - pelo menos com as coisas que eu conseguia vestir. enfim. bom, depois, e durante algum tempo, houve uma rapariga que era tradutora. falava do modo mais eloquente que já ouvi alguém falar. chegava a rir com aquilo. foi a única pessoa que conheci até hoje que usava as palavras ‘enternecedor’, ‘deveras’ ou ‘luxuriante’ como elementos constituintes de uma qualquer frase simples, isto já para não falar do uso abusivo dos advérbios de modo. não me opunha nada a isso, até porque acho piada a ouvir as palavras que estou apenas habituado a encontrar em livros reproduzidas pela voz. sabes, é como se pudesse confirmar que afinal é mesmo assim que se diz. acho que foi ela que me pegou o vício que tenho de abusar dos advérbios de modo quando quero falar assim de uma maneira mais articulada.
- acho que também faço isso.
- uma outra ainda, que tinha um metro e noventa de altura, beijava de língua receosa, porque o freio não lhe permitia estender a língua muito mais do que meio centímetro fora da boca. era bastante parecida comigo, mas não durou muito tempo. coisa de um mês. agora vive em espanha.
- que idade é que tu tens?
- vinte e cinco. olha, a ambulância já aí vem.
- vens ter comigo ao hospital?
- sim, não te preocupes com isso.