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  <title>:: admissões</title>
  <subtitle>por todos os quases e coisas que nunca chegam a ser.</subtitle>
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    <name>jack</name>
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  <updated>2009-09-02T00:29:38Z</updated>
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    <title>sabe o camané (ou soubesse)</title>
    <published>2009-08-03T15:23:25Z</published>
    <updated>2009-08-10T15:16:08Z</updated>
    <content type="html">Quem põe certezas na vida &lt;br /&gt;Facilmente se embaraça &lt;br /&gt;Na vil comédia do amor; &lt;br /&gt;Não vale a pena ter alma &lt;br /&gt;Porque o melhor é andarmos &lt;br /&gt;Mentindo seja a quem for &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gosto de saber que vives, &lt;br /&gt;Mas não perdi a cabeça &lt;br /&gt;Nem corro atrás do desejo; &lt;br /&gt;Quem se agarra muito ao sonho &lt;br /&gt;Vê o reverso da vida &lt;br /&gt;Nos movimentos dum beijo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ando queimado por dentro &lt;br /&gt;De sentir continuamente &lt;br /&gt;Uma coisa que me rala; &lt;br /&gt;Nem no meu olhar o digo &lt;br /&gt;Que estes segredos da gente &lt;br /&gt;Não devem nunca ter fala. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez não saibas que o amor, &lt;br /&gt;Apesar das suas leis, &lt;br /&gt;Desnorteia os corações; &lt;br /&gt;- Complicadíssima teia &lt;br /&gt;Onde se perde o bom senso &lt;br /&gt;E as mais sagradas razões.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;António Botto</content>
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    <title>Ruído</title>
    <published>2009-04-19T06:46:10Z</published>
    <updated>2009-08-13T14:53:11Z</updated>
    <category term="poesias"/>
    <category term="admissões"/>
    <lj:music>bon iver, re: stacks</lj:music>
    <content type="html">Vou odiar-te todos os dias da minha vida&lt;br /&gt;Enquanto tiver força para tal.&lt;br /&gt;E gostava apenas que conseguisses ouvir o som &lt;br /&gt;que faço&lt;br /&gt;que se faz ouvir&lt;br /&gt;quando te odeio tantas noites seguidas&lt;br /&gt;durante este tempo todo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É assim um som brando, cadenciado&lt;br /&gt;Um ruído quase imperceptível&lt;br /&gt;que percorre todos os limites do meu corpo&lt;br /&gt;E chega aos outros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eles sabem que o ouvem&lt;br /&gt;Quando me tocam e eu lhes toco a eles.&lt;br /&gt;Quando se apaixonam por mim &lt;br /&gt;E eu&lt;br /&gt;Por ti, uma e outra vez&lt;br /&gt;Pela memória já desincorporada&lt;br /&gt;Expropriada&lt;br /&gt;que teima em não arredar daqui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eles não sabem que é por ti que se perdem&lt;br /&gt;Pelo barulho que faz o asco&lt;br /&gt;Este ranger rancoroso e furtivo.&lt;br /&gt;E eu desprezo-os a eles&lt;br /&gt;Ainda mais que a ti, por isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quero que a vida te corra mal&lt;br /&gt;Que te embebedes e não percebas porquê.&lt;br /&gt;Que continues a chorar sozinha&lt;br /&gt;Sempre que perceberes que ninguém vai ouvir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vais sempre saber que o teu amor &lt;br /&gt;Estará seguro comigo.</content>
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    <title>Avenida Estados Unidos da América</title>
    <published>2009-03-02T19:37:07Z</published>
    <updated>2009-03-02T19:37:07Z</updated>
    <category term="lisboa"/>
    <lj:music>debussy, clair de lune</lj:music>
    <content type="html">H&amp;aacute; uns anos prolongaram a Avenida Estados Unidos da Am&amp;eacute;rica at&amp;eacute; &amp;agrave; zona do Vale Formoso, per&amp;iacute;metro algo malfadado da cidade at&amp;eacute; ao advento da Expo &amp;rsquo;98, que o veio revitalizar. Lisboa parecia ser c&amp;iacute;nica para com esta sua &amp;aacute;rea, quase como se de um desagrad&amp;aacute;vel tra&amp;ccedil;o de personalidade ou um sinal feio no rosto se tratasse. L&amp;aacute;, foi colocando bairros sociais uns atr&amp;aacute;s dos outros, ultimamente pontuados por clubes de condom&amp;iacute;nios fechados estrategicamente situados. Sente-se isso como uma tentativa de sublima&amp;ccedil;&amp;atilde;o dessa &amp;aacute;rea desditosa, habitualmente sem grande sucesso, embora o novo urbanismo com as suas constru&amp;ccedil;&amp;otilde;es mais estilizadas se tenha ali de facto instalado. O prolongamento desta avenida veio torn&amp;aacute;-la numa art&amp;eacute;ria maior da cidade, embora lhe tenha conferido tamb&amp;eacute;m uma maior complexidade ao n&amp;iacute;vel do seu pr&amp;oacute;prio percurso. Quem parte da zona oriental, mais perto do rio em direc&amp;ccedil;&amp;atilde;o ao centro, pode facilmente observar a pl&amp;ecirc;iade de contrastes arquitect&amp;oacute;nicos e sociais ao longo do pr&amp;oacute;prio viaduto, o membro acoplado &amp;agrave; j&amp;aacute; instalada avenida que nos leva praticamente aos limites de Lisboa. Assim, nesse sentido, quando chegamos ao final do viaduto, antes de cruzar o Senhor Almirante Gago Coutinho, paramos nos sem&amp;aacute;foros que, longamente demorados, nos parecem avaliar o merecimento da passagem para a cidade mais nobre, das avenidas mais antigas como as de Alvalade, Roma e a zona do Areeiro. Ou, por outra, de chegarmos &amp;agrave; exibi&amp;ccedil;&amp;atilde;o dengosa de maior poder econ&amp;oacute;mico das avenidas e ruas novas ali coladas ao divertimento b&amp;aacute;rbaro e institucional do Campo Pequeno: Berna, 5 de Outubro, Valbom, o senhor Duque de Saldanha. &lt;br /&gt;Nesses sem&amp;aacute;foros, dizia eu, justamente nesse ponto, como em poucos outros na cidade, sinto a verdadeira gravidade da solid&amp;atilde;o. Ontem &amp;agrave; noite, em direc&amp;ccedil;&amp;atilde;o justamente &amp;agrave; zona do Saldanha, o sem&amp;aacute;foro decide, como costuma sempre fazer, interromper-me a in&amp;eacute;rcia do movimento. Fico ent&amp;atilde;o ali, pouco antes das dez da noite, a co&amp;ccedil;ar a nuca, displicente. Tento ignorar a referida solid&amp;atilde;o e a sua inexor&amp;aacute;vel gravidade, sem grande sucesso. O carro ao lado do meu &amp;eacute; a gas&amp;oacute;leo, o motor faz um pouco mais de ru&amp;iacute;do, o suficiente para me fazer virar o olhar na sua direc&amp;ccedil;&amp;atilde;o. L&amp;aacute; dentro vai uma mulher, jovem ainda, uns vinte e sete, vinte e oito anos, de cabelo curto, muito escuro. Procura algo dentro de uns cadernos que vai erguendo e que leva em cima do banco do pendura. A luz incidente do tecto do ve&amp;iacute;culo ilumina-lhe o rosto e o olhar. Olhos claros, azuis parecem-me. O rosto &amp;eacute; um pouco largo, anguloso, bonito, alguma sinuosidade nos f&amp;iacute;sicos. Veste de preto e branco, de modo formal. Ela encontra finalmente o que procurava e coloca o famigerado objecto em baixo, em frente ao man&amp;iacute;pulo das mudan&amp;ccedil;as - parece-me. Assim n&amp;atilde;o se esquecer&amp;aacute; de o levar consigo. N&amp;atilde;o consigo parar de olh&amp;aacute;-la e, durante estes instantes, surge-me uma vontade imensa de contacto. S&amp;atilde;o breves segundos, mas &amp;eacute; preciso fazer algo para estabelecer liga&amp;ccedil;&amp;atilde;o, inaugurar um v&amp;iacute;nculo, mesmo que banal, dizer-lhe seja o que for. &lt;br /&gt;Mas n&amp;atilde;o. N&amp;atilde;o h&amp;aacute; nada e o sinal verde cai. O sem&amp;aacute;foro, agente cr&amp;iacute;tico e avaliador, permite-nos a passagem e ambos seguimos, al&amp;iacute;vio no trav&amp;atilde;o, embraiagem, primeira velocidade, acelerador. Com o carro em movimento, n&amp;atilde;o me lembro mais de tudo isto. Seguimos lado a lado por algumas dezenas de metros, at&amp;eacute; que o carro a gas&amp;oacute;leo vira para a direita, Alvalade, que talvez derive do &amp;aacute;rabe &amp;ldquo;Al Balade&amp;rdquo;, local habitado e murado. Longe do deserto que a rodeia.</content>
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    <title>Chegou ao fim.</title>
    <published>2009-02-28T19:14:20Z</published>
    <updated>2009-02-28T19:14:20Z</updated>
    <lj:music>vinicius de moraes, águas de março</lj:music>
    <content type="html">Com a defesa da tese, a vida académica, por ora, chegou ao fim. Foi um percurso bonito, cheio de vida nos primeiros anos e de maior interesse específico nos últimos.&lt;br /&gt;Vou demorar a sair da tensão psíquica e física dos últimos dias, e bem sei que acaba um filme e começa outro. Contudo, mesmo perante as evidentes adversidades, estou optimista.</content>
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    <title>bob haircut</title>
    <published>2009-02-17T15:53:15Z</published>
    <updated>2009-02-19T18:32:44Z</updated>
    <lj:music>kings of leon, closer</lj:music>
    <content type="html">Estive encostado &amp;agrave; coluna do bar alguns minutos, por baixo do arco que se perfilava a partir desta at&amp;eacute; &amp;agrave; parede lateral. De m&amp;atilde;os nos bolsos, olhei-a enquanto dan&amp;ccedil;ava. Era o est&amp;iacute;mulo mais entusiasmante que por ali se afigurava, imiscu&amp;iacute;da no pequeno grupo de gente que se movia em ritmos destoantes. Vestia de preto dos p&amp;eacute;s &amp;agrave; cabe&amp;ccedil;a e sorria de olhos fechados, abrindo-os apenas quando um rapaz muito alto - e mesmo &amp;iacute;ngreme dir-se-ia - a procurava num abra&amp;ccedil;o alco&amp;oacute;lico. Ela ficava algo atrapalhada, talvez mesmo incomodada com estas manifesta&amp;ccedil;&amp;otilde;es ocasionais de carinho etilizado, e procurava-lhe as m&amp;atilde;os. Parecia recear o caminho que elas queriam tomar. Quando me saturei da minha posi&amp;ccedil;&amp;atilde;o e do cen&amp;aacute;rio, sinalizei-o silenciosamente com um suspiro e decidi vir sentar-me a um canto da divis&amp;atilde;o anterior.&lt;br /&gt;Momentos depois, assim que terminou a faixa musical que passava a partir do disco de vinil at&amp;eacute; &amp;agrave;s colunas de m&amp;aacute; qualidade, vi-a a percorrer a divis&amp;atilde;o em direc&amp;ccedil;&amp;atilde;o &amp;agrave; casa de banho. Quando voltou, sentou-se no banco rasteiro ao lado do meu e acendeu um cigarro antes de me perguntar,&lt;br /&gt;- D&amp;aacute;s-me boleia?&lt;br /&gt;- Boleia para onde?&lt;br /&gt;- Onde vives?&lt;br /&gt;- Do outro lado da cidade.&lt;br /&gt;- &amp;Oacute;ptimo, &amp;eacute; para l&amp;aacute; que vou.&lt;br /&gt;- N&amp;atilde;o sei se &amp;eacute; uma boleia que procuras.&lt;br /&gt;- Porqu&amp;ecirc;, n&amp;atilde;o gostas do meu aspecto?&lt;br /&gt;- N&amp;atilde;o sei se &amp;eacute; isso que est&amp;aacute; aqui em causa.&lt;br /&gt;- Olha, eu posso ir-me embora. Mas sei que estiveste a olhar para mim enquanto eu dan&amp;ccedil;ava, por isso pensei que te podia vir aqui perguntar se me querias dar boleia.&lt;br /&gt;- E o teu namorado?&lt;br /&gt;- Ele n&amp;atilde;o te conhece, tu n&amp;atilde;o costumas vir aqui.&lt;br /&gt;Senti que os segundos passavam lentamente, enquanto a via levar ansiosamente o cigarro &amp;agrave; boca, e dar longas baforadas. Ela olhava-me nos olhos. N&amp;atilde;o lan&amp;ccedil;ava o fumo fora, deixando com que este fosse saindo enquanto falava, conforme os l&amp;aacute;bios descolavam um do outro. Era-me mais velha alguns anos, talvez se acercasse j&amp;aacute; dos trinta, mas estava em boa forma. Era endemicamente magra, o peito era pequeno mas vivo e as pernas tinha um ar forte, de quem caminha. Cabelo liso pelo queixo, o rosto de linhas finas, bem definidas, os pulsos eram finos e tinha apenas uma pulseira de metal no antebra&amp;ccedil;o esquerdo. Usava o rel&amp;oacute;gio fino no lado direito. A camisa preta estava bem colada ao corpo, com as duas primeiras casas desocupadas e as mangas um pouco arrega&amp;ccedil;adas. Podia ver a al&amp;ccedil;a do soutien preto a percorrer um ponto m&amp;eacute;dio do ombro, antes de descer para a omoplata. De perfil, quando se virava para olhar para a pista, era poss&amp;iacute;vel vislumbrar a copa do soutien, que continha a mama. Tinha um olhar triste, mas fazia-se confiante. Em poucos segundos, vi projectados imensos filmes &amp;agrave; minha frente, daqueles &lt;em&gt;film noir&lt;/em&gt; passados em Chicago nos anos 30 e 40. Procurando disfar&amp;ccedil;ar a minha infantilidade, disse-lhe com um tom de voz seguro, &lt;br /&gt;- Desculpa, mas n&amp;atilde;o posso ajudar-te.&lt;br /&gt;Sorriu e eu percebi que ela tinha ali, naquele momento, conclu&amp;iacute;do algo muito importante sobre si pr&amp;oacute;pria. S&amp;oacute; quando se levantou percebi qu&amp;atilde;o bem cheirava, algo excepcional dada a cortina de fumo tab&amp;aacute;gico que se impunha. De p&amp;eacute;, apagou o cigarro no cinzeiro que estava em cima da pequena mesa que nos separava, lan&amp;ccedil;ou a &amp;uacute;ltima baforada de fumo e foi-se embora. &lt;br /&gt;</content>
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    <title>sem título</title>
    <published>2009-01-14T19:47:46Z</published>
    <updated>2009-09-02T00:29:38Z</updated>
    <category term="admissões"/>
    <content type="html">Na outra noite estávamos os dois no carro. Nessa semana fiz o pleno ao levar-te a casa todos os dias. Parámos uma vez mais em frente à porta do edifício e ficámos os dois calados dentro do carro. Nessa noite, após teres entrado, cheia de frio, puseste o cinto, esfregaste as mãos e olhaste em frente. Sorriste, estavas feliz, mas não disseste nada até chegarmos. O plano em que paramos é inclinado, e quando te encostas no banco, posso imaginar-te deitada, mais descontraída. Como quando ficas no meu sofá depois de jantar. Ou no teu, em tua casa, onde nunca entrei. Mexes nas minhas mãos, procurando-lhe as palmas e o lado de dentro dos dedos. E depois os nós e as unhas, mexes-lhes enquanto chove muito do lado de fora do carro. Apertas-me os pulsos e deslizas os dedos para os meus antebraços. Gosto tanto da tua integridade e do teu sentido de justiça. Gosto tanto que sejas correcta e que faças sempre o mais merecido. Quase tanto como das tuas orelhas bicudas em cima. Disseste-me apenas que no dia seguinte era natal e que não me irias ver durante uma semana. Uma semana até poderes voltar a estar comigo em minha casa, da qual já tens a chave, e a tomar banho comigo. Enquanto me falavas, começaste a bater-me nas palmas das mãos com as tuas palmas das mãos, e afundaste o teu rosto na gola do casaco. Tens os olhos largos, tão castanhos e grandes. Começa a chover com mais força fora do carro e olhas para os cinco metros que te separam da porta de entrada. Não largas as mãos, ambas as minhas mãos. Ficaste ali até parar de chover, e depois ficaste mais um bocadinho. E depois alguém passou ao lado do carro com um chapéu-de-chuva e fechou-o à entrada do prédio. Gosto tanto de ti, e da tua necessidade de te questionares e ao teu dia quando estou em silêncio a ouvir-te. Enfiaste os dedos no trinco e abriste a porta ao frio ventoso e à chuva e saíste.</content>
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    <title>roubado à lebre</title>
    <published>2009-01-06T14:42:28Z</published>
    <updated>2009-01-06T14:42:28Z</updated>
    <category term="poesias"/>
    <content type="html">Digo-te por isso&lt;br /&gt;que não me obrigues a luz.&lt;br /&gt;Que escrever não é fácil,&lt;br /&gt;que viver não é fácil&lt;br /&gt;quando começamos a frase a meio.&lt;br /&gt;Que lavo a cara ao chegar tão tarde&lt;br /&gt;e mesmo assim o dia não se despega,&lt;br /&gt;e mesmo assim&lt;br /&gt;tu não estás, ninguém está.&lt;br /&gt;Que não tenho espaço na minha secretária,&lt;br /&gt;na minha vida, na minha cama&lt;br /&gt;para tanto espaço.&lt;br /&gt;Que já me disseram urbana,&lt;br /&gt;e nem por isso me disseram decadente,&lt;br /&gt;e que eu gostei.&lt;br /&gt;Que já me disseram&lt;br /&gt;muitas vezes&lt;br /&gt;disfarçadamente triste,&lt;br /&gt;e que por isso, por ser triste, por&lt;br /&gt;sermos todos tristes, não mo deviam dizer.&lt;br /&gt;Digo-te por isso&lt;br /&gt;que não era minha intenção dizer-te mais uns versos&lt;br /&gt;tristes e sem luz, e por isso, só por isso,&lt;br /&gt;não era minha intenção dizer-te nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Filipa Leal</content>
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    <title>Beta</title>
    <published>2008-12-14T22:32:29Z</published>
    <updated>2009-01-28T01:33:48Z</updated>
    <content type="html">&lt;div align="justify"&gt;Subo no elevador do prédio e cheira cá dentro à Beta, que o perfume que usa é o mesmo desde há doze anos. É a minha vizinha do quinto, filha da Dona Fernanda, ela própria uma recorrência existencial, sempre com o mesmo feitio de saia-casaco desde que me lembro, no mesmo diálogo formal e cansado de fim de dia de trabalho. Ficou enquistada no momento em que o marido, cabo-verdiano, a deixou por uma preta lambona. A Beta deve ter uns vinte e nove, observei-a a crescer e a tornar-se numa das mulheres mais bonitas com quem tive oportunidade de estar ao vivo. Desistiu da escola no nono ano, já com dezoito, e foi trabalhar para a oficina do tio no Beato, onde este tinha a própria casa, por cima da oficina. Atendia os telefones. É diminuída, burrinha até ao fim dos dias, nem sempre se consegue perceber o género da pessoa de quem ela está a falar. Não obstante, de traços estranhamente finos para uma pele tão uniformemente morena, tem uma boca perfeita de cheia e ordenada, olhos pretos e cabelos encaracolado cor-de-violão, mornos de tão sedutores. Foi sempre a sua &lt;i&gt;pièce de résistance&lt;/i&gt;, o cabelo. Já a vi com unhas de gel, maquilhada de modo fantasmagórico e cheia de anéis de pechisbeque, mas apenas conheci variações de comprimento ao seu cabelo. &lt;br /&gt;Beta constituiu com Sónia, a vizinha do primeiro, uma das minhas primeiras fantasias masturbatórias. Sónia, já trintona quando eu ainda apenas despontava do seio da minha catatonia adolescentil, tinha dentes muito tortos, a pele era baça, a figura belfa e os braços negramente peludos. Contudo, transpirava sexo. Um sexo conspurcado, cheio de fluidos e cheiros acres e férreos. Beta não. Sempre prometeu, mais equatoriana naquele beleza ascética, e não menos africana nas voluptuosidades, uma redenção que ela própria nunca conseguiu cumprir. Aliás, mera ilusão. Em boa verdade, Beta correu os vãos de escada de todos os bairros sociais aqui da zona, e foi animal de estimação do tio do Beato, sempre se soube.&lt;br /&gt;Hoje é operadora de telemarketing – a Sónia é adjunta da tipa que gere o museu de Sintra – e vejo-a por vezes chegar, no final do seu turno, pelas duas e meia da manhã. Mais frequente que não, apanho-a a fumar, solitária, à porta do prédio, como que a adiar o momento de regresso a casa. Ainda hoje, quando me vê chegar à noite, trata-me, como sempre o fez, por &lt;i&gt;puto&lt;/i&gt;.&lt;br /&gt;Nessas noites sonho-a lasciva, a fazer-me uma mamada no vão da escada. A ser maternal na deslocada lógica da cabeça dela.&lt;/div&gt;</content>
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    <title>#33, disavowal</title>
    <published>2008-12-08T05:20:49Z</published>
    <updated>2009-08-13T14:57:53Z</updated>
    <category term="admissões"/>
    <content type="html">&lt;div align="justify"&gt;Quando encontrei esta artimanha para te não deixar ir, percebi que te podia escrever de todas as formas, em todo o lado, em princípios e em fins, em todas as pessoas do mundo. Mas o amor é meu, já o era antes de ser teu também e mesmo depois, quando o desocupaste, ele continuou a ser minha pertença. Durante tanto tempo apeteceu-me escrever-te em todas as estórias, a fazer de todas as mulheres em que pensei, comigo ou longe de mim, com outro. Mesmo já sem a tua voz, localizei-te em todo o lado, sob todas as luzes, com diferentes cheiros. Foste todos estes actos, restrições, sintomas, sonhos, narrativas, vislumbres e imagens. Em boa verdade, podias ser quem quer que fosses, eras sempre minha, comigo sempre a compor-te. Foi esse o teu dote, a tua prerrogativa comigo. &lt;br /&gt;Entretanto, é este o espaço onde tudo foi morrendo. Depois de te decompor diametralmente e te fazer desempenhar papeis acessórios, deixei-te na primeira noite de insónia em muito tempo.&lt;/div&gt;</content>
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    <title>Barthes</title>
    <published>2008-07-25T22:44:34Z</published>
    <updated>2008-07-25T22:45:28Z</updated>
    <category term="enlightenments"/>
    <lj:music>james blackshaw, the past has not passed</lj:music>
    <content type="html">Saber que não se escreve para o outro, saber que isto que vou escrever não me fará nunca ser amado por quem amo, saber que a escrita nada compensa, nada sublima, que está precisamente &lt;i&gt;aí onde tu não estás&lt;/i&gt; - é o começo da escrita.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;font size="-2"&gt;Roland Barthes, fragmentos de um discurso amoroso&lt;/font&gt;</content>
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    <title>#32</title>
    <published>2008-07-06T20:09:43Z</published>
    <updated>2008-07-22T18:13:07Z</updated>
    <category term="admissões"/>
    <content type="html">&lt;div align="justify"&gt;És a minha poesia mais difícil de parir, a minha única poesia de verdade. Digo-te isto de modo singelo, por te gostar tanto, de te precisar e da tua boca, que me irá sempre tardar. Tudo isto só mais uma vez. Dizer-to ameniza o meu silêncio, sem mágoa ou saudade, digo-o para que ele me passe a fazer companhia à mesa com a memória, e não mais me pese.&lt;/div&gt;</content>
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    <title>silêncio</title>
    <published>2008-06-29T05:32:47Z</published>
    <updated>2008-12-09T18:05:02Z</updated>
    <lj:music>carlos paredes, canto de embalar</lj:music>
    <content type="html">Se soubesses&lt;br /&gt;Se às vezes soubesses&lt;br /&gt;Como me sinto&lt;br /&gt;Às vezes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se soubesses &lt;br /&gt;Como é viver este silêncio&lt;br /&gt;Este silêncio acanhado, acarinhado&lt;br /&gt;Pesado e magoado, extraviado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É por este silêncio&lt;br /&gt;Que não te cedo&lt;br /&gt;E é a ele que amo&lt;br /&gt;De noite, sem pertença.</content>
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    <title>da praia</title>
    <published>2008-06-25T14:27:56Z</published>
    <updated>2008-12-13T01:29:45Z</updated>
    <content type="html">&lt;div align="justify"&gt;A minha relação com o mar é de uma estranha proximidade. Gosto muito de mergulhar, de me sentir desfazer naqueles milhões de metros cúbicos de ondas ou mera planície aquática. Já fiz praia de sul a norte - e não de norte a sul, porque sempre explorei muito mais o sul, como se deve depreender - e em qualquer membro, o mar sempre fez o favor de me amenizar. Aliás, dormir na praia deve ser a experiência mais próxima da felicidade e paz estásicas que imagino que seja morrer. Dormir na areia, não muito perto, não muito longe da beira-mar, ao ritmo pulsante das ondas, faz-me sentir afundado, imiscuido na areia, como se estivesse de verdade omisso no solo e que, se alguém me olhasse, não me veria. Bom, talvez visse apenas a proeminência do meu nariz cyraniano.&lt;br /&gt;Assim, sei que embora não seja militante da praia e não faça por contrariar sequer a minha palidez endémica, sei que morrerei sempre que adormecer na praia. Até ao dia em que morrer mesmo, lá por perto, pelo menos perto o suficiente para ouvir o mar quando já não conseguir ver e tactear. No que respeita ao palato, faço muita questão que seja o último sentido a perder antes de morrer. Se for possível até, levá-lo-ei comigo, o sabor comigo, para mais nada.&lt;/div&gt;</content>
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    <title>#31, por onde caem os sonhos</title>
    <published>2008-06-16T01:42:06Z</published>
    <updated>2008-09-17T23:07:27Z</updated>
    <category term="admissões"/>
    <content type="html">&lt;div align="justify"&gt;Tentei negociar com o tempo o melhor que pude. Ele olhou-me de frente e disse-me numa voz cândida, disse-me que não podia fazer mais nada por mim. Apresentei-lhe os teus maiores argumentos, a verdade que te encerra, a de seres o amor da minha vida. Disse-lhe, a suar, que te iria fazer persistir dentro de mim enquanto tivesse a faculdade de incorporar ar e fazê-lo parte de mim. &lt;br /&gt;A memória pegou-me na mão esquerda e festejou-a, com o rosto. Senti as lágrimas rasgarem-me a pele, à velocidade da gravidade e da dor que me causavam. Quando fechei os olhos para aguentar as lâminas todas de uma vez, a memória assombrou-me a pele do antebraço com arrepios e beijou-me os olhos. Disse-me que devia deixar com que te perdesses, que devia deixar de te dar este norte que não é o teu. &lt;br /&gt;A memória é uma mulher e enternece-se comigo, por me ver a chorar de amor. O tempo não. O tempo mantém-se presente na divisão, presente na sua ubiquidade, inflexível e surdo. É ele quem me diz, em breves gestos, para te deixar ir, perder-te no intervalo entre a cama e a parede.&lt;/div&gt;</content>
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    <title>#30, indolência no trabalho</title>
    <published>2008-06-06T18:01:55Z</published>
    <updated>2008-12-13T01:35:35Z</updated>
    <category term="admissões"/>
    <content type="html">&lt;div align="justify"&gt;Entardece aqui no gabinete, e eu sinto falta de te beijar na boca. Um sentimento particular, a falta de beijar a boca. Passam meses em que te beijo todo o contorno das orelhas, em que te sinto a dureza branda da cartilagem nos lábios e testo-lhe, devagar, a sensibilidade com os dentes. Passam minutos, meses, um manancial inconsequente de tempo, prazer alongado ao longo do teu rosto, das linhas que o definem pelo maxilar inferior. Sinto, nessas alturas, o verdadeiro vácuo que é afundar todo o meu saber nas bochechas que te arredondam a face, que ta prosam tão docemente. Prostro os lábios ao longo dos teus olhos, das esquinas do teu olhar fechado e pueril, pesado do cansaço do dia. Passo as minhas horas, as minhas noites, alongo e retardo o teu cheiro. É um desagradecimento que o corpo me impõe, e eu lhe imponho a ele: mesmo em dois sentidos tão próximos, poder conseguir cheirar-te a fundo mas, por muito que me aproxime, não alcançar o teu sabor.&lt;/div&gt;Sinto tanta falta de te beijar na boca.
&lt;div align="justify"&gt;Deposito a minha ciência no teu queixo, ao cruzamento com os teus lábios, antes de os atentar. Prolongo a boca pelo teu pescoço, para sentir a diferença de superfície ao contacto com a pele, lábios, dentes e o segundo lábio, já ansioso, estremece e receia a entrega. É um lábio zeloso, o segundo. Zela pela integridade, pela constância, pela segurança que é não ter ainda acesso ao sabor. É que o segundo lábio é o último membro antes da língua, ela sim, já admitida, sôfrega, hemorrágica. O segundo lábio humedece, receoso, restringe-se em medo de amar, e é, de toda esta falange, o elemento com a tarefa mais ingrata.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A boca ergue-se à força do pescoço, e é o primeiro lábio que se deleita, tocando a adiposidade da tua boca, fina pela vida. Quando, finalmente, o segundo lábio chega, preparado, treinado, excitado, especialista e sente o calor vaporado da proximidade do teu interior, o seu intento é heróico. Recolher a tua boca ao ritmo do sabor com que me premeias é a última das instâncias da memória que percorro.&lt;/div&gt; A tarde amadurece e esta temperatura é a do calor brando, macio, tenro do lado de dentro de ti.&lt;div align="justify"&gt;E faço isto para mim, para ti. Faço-me sentir falta de te beijar a boca, na boca. Da profunda imersão que me és quando te me permites.&lt;/div&gt;</content>
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    <title>Ainda a série do que se quis manter: As Masculinidades</title>
    <published>2008-05-17T14:45:20Z</published>
    <updated>2008-05-17T14:51:23Z</updated>
    <lj:music>sun kil moon, moorestown</lj:music>
    <content type="html">&lt;div align="justify"&gt;Na manhã seguinte à primeira vez que ficou em casa de um namorado adulto, assim que o sentiu acordar na cama, num húmido e quente nu, perguntou-lhe se ele se importava que ela assistisse enquanto ele fazia a barba. E repare-se, não que se importasse que ele a usasse desfeita, mas o ritual sempre a atraiu especialmente. A falta de ter crescido sem o hábito de ver um homem de toalha ou pijama, de rosto branco espumado, de ouvir o som da lâmina mergulhada na água tépida de meio em meio minuto, ou de sentir o cheiro também ele húmido e entorpecente dos produtos que tal masculinidade exigia, era-lhe subjugante.&lt;/div&gt;
&lt;div align="justify"&gt;O rapaz olhou-a, perplexo, e assentiu. Ambos foram primeiro aos afazeres urinários, visitaram à vez a cozinha e foi de lá que levou um banco de balcão, daqueles de média altura. Sentou-se de frente para ele, vendo-o de perfil, estacionada em frente ao bidé e antes da banheira. Observava-o atentamente, de cuecas e numa t-shirt dos pearl jam que o tio lhe tinha oferecido, ela que nem gostava assim tanto de pearl jam e, heresia das heresias, do Eddie Vedder. Que tinha um ar demasiado mole, mesmo para o eu adolescentil. Ele perguntou-lhe, a dada altura, se ela queria experimentar fazer um pequeno traçado do rosto, aquele por baixo do olhar direito até à veia jugular. Algo a medo, mas entusiasmada, empunhou a lâmina e desfez-lhe o rectângulo branco pintalgado da negra produção filiforme, de origem epidérmica, que cobre a superfície do corpo dos mamíferos. Daquele em especial, masculino e insular, que lhe sorria. Abraçou-o no final e sentiu as mãos grandes que a seguravam.&lt;/div&gt;</content>
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    <title>o que se quis manter: Onirismo</title>
    <published>2008-04-19T22:26:45Z</published>
    <updated>2008-04-19T22:26:45Z</updated>
    <content type="html">&lt;div align="justify"&gt;Saio de casa com as chaves do carro na mão direita, os livros e a agenda seguros pelo braço esquerdo. A caixa do elevador está já ali, não é preciso carregar no botão para o convocar. Desço no seu interior em ausência de luz, enquanto não houver ordem de condomínio os vizinhos folgam e é sempre o outro, alguém, a fazê-lo. Ao empurrar a porta para sair e seguir para o dia que ainda não comecei a reconhecer, reconheço sim um empecilho ao ângulo que a porta faz quando é empurrada. Estendo o braço e forço a minha vontade, que me tenho vindo a conformar a uma impaciência fácil de manhã, assim tão cedo. O estorvo cede, e sinto uma reviravolta do lado de fora. Estico-me e encolho-me. Tento colocar a cabeça e o tronco do lado de fora, e espantam-me os olhos embaciados do sono. Por ali está um corpo extinto no chão, de rosto para baixo, o braço esquerdo segue o vector em frente e o direito recolhe um pacote de papel colado ao corpo. É um corpo masculino, em tons escuros e enquanto não consigo sair da caixa do elevador, a aflição do reconhecimento daquela realidade faz-me esquecer a dor do aperto que a porta me vai provocando contra o peito. O braço esquerdo pende, pálido.&lt;br /&gt;Racionalizo que os assuntos que levo comigo podem ficar do lado de fora que os agruparei de novo, assim que retirar o meu canastro dali. E o outro ali permanece, quando olho para baixo. Não anima a indiferença respiratória. O tipo está morto, ocorre-me facilmente, na altura em que consigo finalmente sair do elevador. Debruço-me sobre o corpo e reconheço-lhe a fisionomia. Ergo-lhe o braço e é como se pegasse o meu próprio membro, quando fortuita e inopinadamente acordo em cima dele, depois de por várias horas lhe vetar a circulação. Costumo ficar com a noção de que não é meu, mas sim que me é extrínseco. Uma leve e longínqua sensação de não-pertença que assusta, não vá não lhe conseguir recuperar o controle e a articulação. O tórax doído, denuncia onde o metal impôs a sua densidade, justamente ao meio do peito. Debruço-me sobre ele e sinto um aperto, antes de virar o corpo, um leve asco pela frieza do contacto com a pele. A sensação de dormência percorre-me agora as vértebras e o pescoço, enquanto me sinto ser erguido.&lt;br /&gt;Sou eu que ali jazo. No sonho, inundo-me de mim, e é nesse momento que acordo.&lt;/div&gt;</content>
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    <title>o que se quis manter: Ao Subchefe</title>
    <published>2008-04-19T22:26:08Z</published>
    <updated>2008-04-19T22:26:08Z</updated>
    <content type="html">&lt;div align="justify"&gt;Vindo da esquadra, venho de visita ao mundo aparentemente apático do Subchefe Carlos Lopes, o agente de serviço esta noite. Depois do agente que estava a sair me ter indicado o gabinete contíguo ao corredor inicial, decorado com vários cartazes da Associação de Apoio à Vítima e uma enorme moldura de madeira de sobreiro com os direitos do detido em quatro línguas – por ordem: português, francês, inglês e castelhano –, o Subchefe acena-me e faz-me sinal para entrar e me sentar. Lanço-lhe um boa noite, enquanto puxo a cadeira que estava encostada à parede para a frente da sua secretária, gesto que o agente não estranha. Pergunta-me, enquanto, sem qualquer tentativa de o disfarçar, me procura avaliar de alto a baixo, o que é que me aconteceu.&lt;br /&gt;O Subchefe Carlos Lopes tem uma estrutura robusta, não tem bigode (ninguém me estranhará acrescentar a ausência deste elemento específico numa descrição de um agente da PSP) no rosto anguloso, os braços são curtos para o tórax que alarga na cintura, as palmas das mãos sapudas e os dedos estranhamente repolhudos, com uma anilha de aliança grossíssima no dedo anelar. Os dedos batem o teclado displicentemente, ocupando toda a área da tecla.&lt;br /&gt;Relato-lhe o sucedido, o desaparecimento da minha carteira e, por consequência, os meus documentos, entre os quais o BI, a carta de condução, o cartão de contribuinte, o título de registo de propriedade e o livrete do carro. Também se foram cinquenta e cinco euros (o máximo de recheio que a minha carteira tinha visto a preenchê-la em toda a sua já admitidamente longa vida de utilização), o cartão com nove refeições picadas no restaurante italiano onde costumo almoçar (a décima seria gratuita, portanto seriam mais cinco euros em perspectiva) e uns escritos que tinha discorrido numa factura larga, em certa ocasião de verborreia. O Subchefe indaga-me sobre o local onde penso ter perdido a carteira, ao que lhe respondo como o mais provável tendo sido na Avenida da Liberdade, entre as 21 e as 22 horas. O meu interlocutor não levanta os dedos nem o olhar do teclado, continuando visivelmente concentrado numa redacção do sucedido. Alerta-me que, no caso, talvez seja melhor generalizar à cidade inteira, sugestão com a qual concordo. Assim que respondo julgo ouvir em murmúrio o vocábulo “urbe”, o qual, no entanto, desacredito, talvez tenha ouvido mal. Pergunta-me entretanto o que é que faço, cedo o sorriso e respondo-lhe que sou aluno finalista de Psicologia Clínica. Pela primeira vez desde que o iniciou, interrompe o já frenético dactilografar e volta a olhar-me nos olhos. O Subchefe parece interessado, a avaliar pela quantidade de questões subsequentes sobre a matéria. Diz-me finalmente que é uma área que lhe chama a atenção por não ter ainda uma opinião sobre se é crível ou não. Ainda me questiona sobre se há saída no mercado de trabalho. Respondo-lhe que procura existe, mas o principal empregador, que ainda é o estado, não se dispõe a tal. Returque dizendo-me que o estado não tem dinheiro para investir em coisas assim. Um outro agente interrompe-o dizendo-lhe que tem entre mãos um internamento compulsivo e que tem de enviar um fax. O Subchefe diz-lhe que o horário do eventual receptor de tais faxes termina aos sábados às 16 horas. Dito assim, “às dezasseis horas”. O outro insiste, que o caso é complicado, que é um senhor que precisa de ser internado e o Subchefe olha para mim, porque as coincidências são para olhares assim. Diz ao colega que me aparente pertencer a uma classe hierárquica inferior pela diferença de trato, não obstante parecer mais velho. Ele sim, usa um farto bigode. O Subchefe diz-lhe que já o ajuda a resolver o caso, que são só mais cinco minutos até resolver o problema a este senhor, repartindo agora o olhar entre o teclado e o meu rosto.&lt;br /&gt;Utiliza o dedo do meio para despachar o processo no Enter. A máquina lança-lhe a folha de papel alguns segundos depois e lê comigo a declaração que entretanto me introduz nas mãos. Assim que ele me passa a entretanto finalizada redacção para a mão, posso comprovar a utilização do ditoso vocábulo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;i&gt;DECLARAÇÃO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para os devidos efeitos se declara que Pedro, Residente na Rua do historiador perfeitamente olvidado, nº 54, 2ºdto – Lisboa, comunicou neste Departamento Policial que extraviou, algures nesta Urbe, os seguintes documentos que passo a citar: Bilhete de Identidade, Carta de Condução, Cartão de Contribuinte, documentos estes emitidos em nomes do participante, um Cartão de Débito emitido pela Caixa Geral de Depósitos, o título do registo de Propriedade e o Livrete do Veículo de matrícula 00-00-TP [o Tó Pires], ficando registado neste Departamento sob a NPP em Epígrafe.&lt;br /&gt;Por ser verdade, foi passada a presente declaração, que depois de assinada, vai ser autenticada com carimbo em uso nesta Esquadra.&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pergunto-lhe se, francamente, posso esperar recuperar os documentos. Diz-me, com um discurso muito ruminado, de quem já o distribuiu centenas de vezes nos últimos meses, que há uma boa chance de tal suceder, para só procurar começar a fazer a segunda via dos documentos passados oitos dias do sucedido, ao que anuo. Vá ligando para a secção dos Olivais, sabe onde é, sei sim, e já tenho o contacto, faça isso, então. Agradeço e estico-lhe a mão. Este devolve-me a dele, segura, não muito maior que a minha, mas infinitamente mais nutrida.&lt;br /&gt;Permanece a questão que provavelmente terá uma resposta o mais lógica possível, mas a qual não consigo desvendar: porque é que a maioria dos PSP são do norte? E por outra ainda, será que este lê Saramago?&lt;/div&gt;</content>
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    <title>o que se quis manter: Ao sobrinho</title>
    <published>2008-04-19T22:23:25Z</published>
    <updated>2008-07-01T17:17:46Z</updated>
    <content type="html">&lt;div align="justify"&gt;O petiz faz-me evocar as minhas memórias mais verdes - ou mais azuis, da infância -, ainda para mais no semblante triste. E angustia-me aquela indumentária de início de tarde de filho de &lt;i&gt;nouveau riche&lt;/i&gt;: o pequeno fato castanho, o blazer em especial, os sapatitos, o cabelo cheio de gel para lhe amenizar o todo da figura. Patético. O miúdo olha para todos os familiares e amigos, colegas de trabalho do pai e da mãe e coleguinhas de turma, com um rosto de marcado entorpecimento, de enfado, de tristeza pura e simples. Aos poucos passo por ele, e desaperto-lhe um botão. E assim passo a tarde, entre as minhas retiradas para fumar cigarros e, à socapa, nas passagens por ele para aliviá-lo de mais uma casa da camisa apertada. Com a mãe distraída, lá vai brincando com os outros miúdos, que lhe aproveitam o quarto apetrechado, digno dos ainda recentes quatros anos de tempo empenhado.&lt;/div&gt;</content>
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    <title>o que se quis manter: À Sabedoria</title>
    <published>2008-04-19T22:21:55Z</published>
    <updated>2008-04-20T17:15:23Z</updated>
    <category term="admissões"/>
    <content type="html">&lt;div align="justify"&gt;Sabes, a verdadeira solidão configura-se depois de percebermos quem amamos. É uma solidão diferente, gasta de tanto escrita, um luto que nos acompanha lado a lado, o despropósito aceite como parte do que se sente. E todos os deliberados enganos a que me proponho só o são para me fazerem perceber o quão certo estou, e não me importo de com eles gastar o tempo até ti.&lt;br /&gt;Mas olha, entretanto, podes levar os dias que trouxeste, que ainda nem sei o que fazer às foscas, mortiças madrugadas que a querença impôs.&lt;/div&gt;</content>
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    <title>Um medley do que se quis manter</title>
    <published>2008-04-19T22:20:34Z</published>
    <updated>2008-04-19T22:30:38Z</updated>
    <content type="html">&lt;div align="justify"&gt;O propósito que tinha o blog morreu, mas por ter sido esta a sua base, deixo-me aqui ficar com os textos que por lá quis manter. Faço-o sem propósito ou objecto, mas é que custa perder coisas sentidas.&lt;/div&gt;</content>
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    <id>urn:lj:livejournal.com:atom1:nomorefilms:114009</id>
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    <title>nomorefilms @ 2007-11-01T05:25:00</title>
    <published>2007-11-01T05:25:37Z</published>
    <updated>2007-11-01T05:25:37Z</updated>
    <category term="poesias"/>
    <content type="html">(...)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;quero lá saber do eu&lt;br /&gt;ainda querer saber&lt;br /&gt;de alguma coisa&lt;br /&gt;parecida com a nossa&lt;br /&gt;diferente da tua&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;a frase que aqui falta&lt;br /&gt;é de vez em quando&lt;br /&gt;se não te importas&lt;br /&gt;dares pela minha falta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Joaquim Castro Caldas</content>
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    <id>urn:lj:livejournal.com:atom1:nomorefilms:113877</id>
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    <title>truísmos.</title>
    <published>2007-10-29T15:10:06Z</published>
    <updated>2007-10-30T23:15:28Z</updated>
    <content type="html">&lt;div align="justify"&gt;&lt;i&gt;"Não me surpreende a violência brutal que é ver uma ex-namorada feliz. Já o prazer que tenho, de cada vez que ela tem um azar, revela não só a inevitabilidade da natureza humana assim como uma grande falta de carácter. Felizmente, a vida corre-lhe lindamente. Puta que pariu. É pedir muito que tenha um azar? Um pequeno azar? Um acidente. Uma perna partida. Uma doença incurável. Um filho. Só isso. Já nem peço que o namorado lhe seja infiel, eles acabem tudo e ela volte para mim. Porque isso sim, seria uma coisa boa para mim e um azar do caralho para ela."&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;


&lt;a href="http://pif-paf.blogspot.com/" target="_blank"&gt;Tiago Galvão, Diário&lt;/a&gt;</content>
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    <title>#29 egotismos</title>
    <published>2007-10-15T00:29:20Z</published>
    <updated>2009-03-13T03:59:51Z</updated>
    <category term="admissões"/>
    <lj:music>radiohead, jigsaw falling into place</lj:music>
    <content type="html">&lt;div align="justify"&gt;É mais o amor-repentista. Aquele amor desbocado que não consegue realmente dizer nada até as palavras lhe serem arrombadas pela emoção catastrófica. É o amor afásico, amor que escreve mas não consegue falar, amor não articulado. É um amor mistifório, continente mas limítrofe, incapaz de se assentar, pronunciar-se, dizer o que sente. &lt;br /&gt;Ele senta-se e vejo-o nitidamente a tentar, a fazer um esforço para se contrariar. Do outro lado da mesa, em frente à chávena de café, contorce o cachecol, oprimindo-o entre as mãos, tentando espremer dele a força e a liberdade para me contar de si. De costas curvadas, vai me olhando de frente, nos olhos, num tom de apelo. Começo por lhe dizer que há um provérbio eslavo da galícia, muito citado por outros antes de mim, que diz que: «o que não contas à tua mulher, o que não contas ao teu amigo, conta-lo a um estranho, na estalagem.». Tento compreender este amor que se me depara neste dia, mais lucidamente que noutros no passado, enquanto enfim se dispõe a falar-me. ‘vejo-lhe e ouço-lhe as singularidades, sabe, e quero-a por todas elas’. Alar as palavras dos outros é um bom truque, digo-lhe, e peço-lhe que continue. O empregado passa por nós e age como se não visse aquele amor, erguendo-lhe despachadamente os utensílios e varrendo as migalhas por baixo destes, com um pano amarelo húmido igual ao que uso em casa. Depois da rápida tarefa, o empregado volta a pousar os objectos em cima da mesa. As pessoas passam e olham-me a mim e nunca àquele amor aparentemente obtuso. Ele empreende-se ‘antes de me ter tornado amor órfão, sentia ao desbarato, olhando a vida como quem chove sobre ela. Ousava-me muito pela reserva de amor que já possuía e que continuava a receber, era um amor fala-barato, um amor destravado, asneirento, pouco receoso do consequente. &lt;br /&gt;Com a orfandade, levou-me a mudança a erguer muros ao exterior e negar qualquer esvaimento do interior, não fosse perder-se por aí, em ruas de quaisquer palavras menos reflectidas. Ruminava-me e ao o conteúdo dos meus quatro estômagos, até à exaustão. Eu, dantes usual consumidor das salivas alheias e pouco poupador da minha própria, via-me melindroso aos olhos de quem agora me olhava. &lt;br /&gt;Reencontro-a a ela, pois, assim destituído, depois de a ter visto e conhecido ainda sem os olhos obscurecidos da descrença, então fanfarrão e pouco dado a percorrer mais caminho do que aquele que me convinha. Reencontro-a no final do verão, a uma própria versão mais autêntica, menos intermitente e narcoléptica, muito, muito mais formosa. De olhos muito maiores, se for possível. Surgida em encadeamento inexplicável de acontecimentos, e consciente de nunca a ter relegado, só me apercebi do quanto lhe tinha sentido a falta depois de a ter visto a mascar pastilha displicentemente, enquanto observava o desfile da avenida principal.&lt;br /&gt;Coloquei-me ao seu lado, encostando-me nas fronteiras de metal ali colocadas para não incomodar os artistas desfilantes. Olhou-me ela para as mãos e tocou-lhes, frias e férreas, e coloquei-me por detrás dela, protegendo-a das intempéries, só para me sentir amor protector – só mais uma vez amor engrandecido, narcisado. E não me preocupei com o vazio de dentro, àquela hora. Só para ser amor contente, quase despreocupado. Sozinho na incerteza e na indecisão, inconcluso, mas só com medo de lhe sorrir a si, que não me conheço como sendo seu.’&lt;/div&gt;</content>
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    <title>divulgar</title>
    <published>2007-10-02T01:15:07Z</published>
    <updated>2007-10-02T01:15:45Z</updated>
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    <content type="html">há várias maneiras de começar o dia&lt;br /&gt;quando acordo fumo um cigarro&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;coso silêncios à pele&lt;br /&gt;num quarto inteiro de palavras vazias&lt;br /&gt;que se repetem como rituais&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;durante semanas ensaiei regressos&lt;br /&gt;apesar das paredes vazias&lt;br /&gt;não deixo de fingir que não estou só&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://theresonly1alice.blogspot.com/" target="_blank"&gt;Maria Sousa&lt;/a&gt;</content>
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