Um medley do que se quis manter
Apr. 19th, 2008 | 11:20 pm
O propósito que tinha o blog morreu, mas por ter sido esta a sua base, deixo-me aqui ficar com os textos que por lá quis manter. Faço-o sem propósito ou objecto, mas é que custa perder coisas sentidas.
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o que se quis manter: À Sabedoria
Apr. 19th, 2008 | 11:21 pm
Sabes, a verdadeira solidão configura-se depois de percebermos quem amamos. É uma solidão diferente, gasta de tanto escrita, um luto que nos acompanha lado a lado, o despropósito aceite como parte do que se sente. E todos os deliberados enganos a que me proponho só o são para me fazerem perceber o quão certo estou, e não me importo de com eles gastar o tempo até ti.
Mas olha, entretanto, podes levar os dias que trouxeste, que ainda nem sei o que fazer às foscas, mortiças madrugadas que a querença impôs.
Mas olha, entretanto, podes levar os dias que trouxeste, que ainda nem sei o que fazer às foscas, mortiças madrugadas que a querença impôs.
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o que se quis manter: Ao sobrinho
Apr. 19th, 2008 | 11:23 pm
O petiz faz-me evocar as minhas memórias mais verdes - ou mais azuis, da infância -, ainda para mais no semblante triste. E angustia-me aquela indumentária de início de tarde de filho de nouveau riche: o pequeno fato castanho, o blazer em especial, os sapatitos, o cabelo cheio de gel para lhe amenizar o todo da figura. Patético. O miúdo olha para todos os familiares e amigos, colegas de trabalho do pai e da mãe e coleguinhas de turma, com um rosto de marcado entorpecimento, de enfado, de tristeza pura e simples. Aos poucos passo por ele, e desaperto-lhe um botão. E assim passo a tarde, entre as minhas retiradas para fumar cigarros e, à socapa, nas passagens por ele para aliviá-lo de mais uma casa da camisa apertada. Com a mãe distraída, lá vai brincando com os outros miúdos, que lhe aproveitam o quarto apetrechado, digno dos ainda recentes quatros anos de tempo empenhado.
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o que se quis manter: Ao Subchefe
Apr. 19th, 2008 | 11:26 pm
Vindo da esquadra, venho de visita ao mundo aparentemente apático do Subchefe Carlos Lopes, o agente de serviço esta noite. Depois do agente que estava a sair me ter indicado o gabinete contíguo ao corredor inicial, decorado com vários cartazes da Associação de Apoio à Vítima e uma enorme moldura de madeira de sobreiro com os direitos do detido em quatro línguas – por ordem: português, francês, inglês e castelhano –, o Subchefe acena-me e faz-me sinal para entrar e me sentar. Lanço-lhe um boa noite, enquanto puxo a cadeira que estava encostada à parede para a frente da sua secretária, gesto que o agente não estranha. Pergunta-me, enquanto, sem qualquer tentativa de o disfarçar, me procura avaliar de alto a baixo, o que é que me aconteceu.
O Subchefe Carlos Lopes tem uma estrutura robusta, não tem bigode (ninguém me estranhará acrescentar a ausência deste elemento específico numa descrição de um agente da PSP) no rosto anguloso, os braços são curtos para o tórax que alarga na cintura, as palmas das mãos sapudas e os dedos estranhamente repolhudos, com uma anilha de aliança grossíssima no dedo anelar. Os dedos batem o teclado displicentemente, ocupando toda a área da tecla.
Relato-lhe o sucedido, o desaparecimento da minha carteira e, por consequência, os meus documentos, entre os quais o BI, a carta de condução, o cartão de contribuinte, o título de registo de propriedade e o livrete do carro. Também se foram cinquenta e cinco euros (o máximo de recheio que a minha carteira tinha visto a preenchê-la em toda a sua já admitidamente longa vida de utilização), o cartão com nove refeições picadas no restaurante italiano onde costumo almoçar (a décima seria gratuita, portanto seriam mais cinco euros em perspectiva) e uns escritos que tinha discorrido numa factura larga, em certa ocasião de verborreia. O Subchefe indaga-me sobre o local onde penso ter perdido a carteira, ao que lhe respondo como o mais provável tendo sido na Avenida da Liberdade, entre as 21 e as 22 horas. O meu interlocutor não levanta os dedos nem o olhar do teclado, continuando visivelmente concentrado numa redacção do sucedido. Alerta-me que, no caso, talvez seja melhor generalizar à cidade inteira, sugestão com a qual concordo. Assim que respondo julgo ouvir em murmúrio o vocábulo “urbe”, o qual, no entanto, desacredito, talvez tenha ouvido mal. Pergunta-me entretanto o que é que faço, cedo o sorriso e respondo-lhe que sou aluno finalista de Psicologia Clínica. Pela primeira vez desde que o iniciou, interrompe o já frenético dactilografar e volta a olhar-me nos olhos. O Subchefe parece interessado, a avaliar pela quantidade de questões subsequentes sobre a matéria. Diz-me finalmente que é uma área que lhe chama a atenção por não ter ainda uma opinião sobre se é crível ou não. Ainda me questiona sobre se há saída no mercado de trabalho. Respondo-lhe que procura existe, mas o principal empregador, que ainda é o estado, não se dispõe a tal. Returque dizendo-me que o estado não tem dinheiro para investir em coisas assim. Um outro agente interrompe-o dizendo-lhe que tem entre mãos um internamento compulsivo e que tem de enviar um fax. O Subchefe diz-lhe que o horário do eventual receptor de tais faxes termina aos sábados às 16 horas. Dito assim, “às dezasseis horas”. O outro insiste, que o caso é complicado, que é um senhor que precisa de ser internado e o Subchefe olha para mim, porque as coincidências são para olhares assim. Diz ao colega que me aparente pertencer a uma classe hierárquica inferior pela diferença de trato, não obstante parecer mais velho. Ele sim, usa um farto bigode. O Subchefe diz-lhe que já o ajuda a resolver o caso, que são só mais cinco minutos até resolver o problema a este senhor, repartindo agora o olhar entre o teclado e o meu rosto.
Utiliza o dedo do meio para despachar o processo no Enter. A máquina lança-lhe a folha de papel alguns segundos depois e lê comigo a declaração que entretanto me introduz nas mãos. Assim que ele me passa a entretanto finalizada redacção para a mão, posso comprovar a utilização do ditoso vocábulo:
Pergunto-lhe se, francamente, posso esperar recuperar os documentos. Diz-me, com um discurso muito ruminado, de quem já o distribuiu centenas de vezes nos últimos meses, que há uma boa chance de tal suceder, para só procurar começar a fazer a segunda via dos documentos passados oitos dias do sucedido, ao que anuo. Vá ligando para a secção dos Olivais, sabe onde é, sei sim, e já tenho o contacto, faça isso, então. Agradeço e estico-lhe a mão. Este devolve-me a dele, segura, não muito maior que a minha, mas infinitamente mais nutrida.
Permanece a questão que provavelmente terá uma resposta o mais lógica possível, mas a qual não consigo desvendar: porque é que a maioria dos PSP são do norte? E por outra ainda, será que este lê Saramago?
O Subchefe Carlos Lopes tem uma estrutura robusta, não tem bigode (ninguém me estranhará acrescentar a ausência deste elemento específico numa descrição de um agente da PSP) no rosto anguloso, os braços são curtos para o tórax que alarga na cintura, as palmas das mãos sapudas e os dedos estranhamente repolhudos, com uma anilha de aliança grossíssima no dedo anelar. Os dedos batem o teclado displicentemente, ocupando toda a área da tecla.
Relato-lhe o sucedido, o desaparecimento da minha carteira e, por consequência, os meus documentos, entre os quais o BI, a carta de condução, o cartão de contribuinte, o título de registo de propriedade e o livrete do carro. Também se foram cinquenta e cinco euros (o máximo de recheio que a minha carteira tinha visto a preenchê-la em toda a sua já admitidamente longa vida de utilização), o cartão com nove refeições picadas no restaurante italiano onde costumo almoçar (a décima seria gratuita, portanto seriam mais cinco euros em perspectiva) e uns escritos que tinha discorrido numa factura larga, em certa ocasião de verborreia. O Subchefe indaga-me sobre o local onde penso ter perdido a carteira, ao que lhe respondo como o mais provável tendo sido na Avenida da Liberdade, entre as 21 e as 22 horas. O meu interlocutor não levanta os dedos nem o olhar do teclado, continuando visivelmente concentrado numa redacção do sucedido. Alerta-me que, no caso, talvez seja melhor generalizar à cidade inteira, sugestão com a qual concordo. Assim que respondo julgo ouvir em murmúrio o vocábulo “urbe”, o qual, no entanto, desacredito, talvez tenha ouvido mal. Pergunta-me entretanto o que é que faço, cedo o sorriso e respondo-lhe que sou aluno finalista de Psicologia Clínica. Pela primeira vez desde que o iniciou, interrompe o já frenético dactilografar e volta a olhar-me nos olhos. O Subchefe parece interessado, a avaliar pela quantidade de questões subsequentes sobre a matéria. Diz-me finalmente que é uma área que lhe chama a atenção por não ter ainda uma opinião sobre se é crível ou não. Ainda me questiona sobre se há saída no mercado de trabalho. Respondo-lhe que procura existe, mas o principal empregador, que ainda é o estado, não se dispõe a tal. Returque dizendo-me que o estado não tem dinheiro para investir em coisas assim. Um outro agente interrompe-o dizendo-lhe que tem entre mãos um internamento compulsivo e que tem de enviar um fax. O Subchefe diz-lhe que o horário do eventual receptor de tais faxes termina aos sábados às 16 horas. Dito assim, “às dezasseis horas”. O outro insiste, que o caso é complicado, que é um senhor que precisa de ser internado e o Subchefe olha para mim, porque as coincidências são para olhares assim. Diz ao colega que me aparente pertencer a uma classe hierárquica inferior pela diferença de trato, não obstante parecer mais velho. Ele sim, usa um farto bigode. O Subchefe diz-lhe que já o ajuda a resolver o caso, que são só mais cinco minutos até resolver o problema a este senhor, repartindo agora o olhar entre o teclado e o meu rosto.
Utiliza o dedo do meio para despachar o processo no Enter. A máquina lança-lhe a folha de papel alguns segundos depois e lê comigo a declaração que entretanto me introduz nas mãos. Assim que ele me passa a entretanto finalizada redacção para a mão, posso comprovar a utilização do ditoso vocábulo:
DECLARAÇÃO
Para os devidos efeitos se declara que Pedro, Residente na Rua do historiador perfeitamente olvidado, nº 54, 2ºdto – Lisboa, comunicou neste Departamento Policial que extraviou, algures nesta Urbe, os seguintes documentos que passo a citar: Bilhete de Identidade, Carta de Condução, Cartão de Contribuinte, documentos estes emitidos em nomes do participante, um Cartão de Débito emitido pela Caixa Geral de Depósitos, o título do registo de Propriedade e o Livrete do Veículo de matrícula 00-00-TP [o Tó Pires], ficando registado neste Departamento sob a NPP em Epígrafe.
Por ser verdade, foi passada a presente declaração, que depois de assinada, vai ser autenticada com carimbo em uso nesta Esquadra.
Para os devidos efeitos se declara que Pedro, Residente na Rua do historiador perfeitamente olvidado, nº 54, 2ºdto – Lisboa, comunicou neste Departamento Policial que extraviou, algures nesta Urbe, os seguintes documentos que passo a citar: Bilhete de Identidade, Carta de Condução, Cartão de Contribuinte, documentos estes emitidos em nomes do participante, um Cartão de Débito emitido pela Caixa Geral de Depósitos, o título do registo de Propriedade e o Livrete do Veículo de matrícula 00-00-TP [o Tó Pires], ficando registado neste Departamento sob a NPP em Epígrafe.
Por ser verdade, foi passada a presente declaração, que depois de assinada, vai ser autenticada com carimbo em uso nesta Esquadra.
Pergunto-lhe se, francamente, posso esperar recuperar os documentos. Diz-me, com um discurso muito ruminado, de quem já o distribuiu centenas de vezes nos últimos meses, que há uma boa chance de tal suceder, para só procurar começar a fazer a segunda via dos documentos passados oitos dias do sucedido, ao que anuo. Vá ligando para a secção dos Olivais, sabe onde é, sei sim, e já tenho o contacto, faça isso, então. Agradeço e estico-lhe a mão. Este devolve-me a dele, segura, não muito maior que a minha, mas infinitamente mais nutrida.
Permanece a questão que provavelmente terá uma resposta o mais lógica possível, mas a qual não consigo desvendar: porque é que a maioria dos PSP são do norte? E por outra ainda, será que este lê Saramago?
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o que se quis manter: Onirismo
Apr. 19th, 2008 | 11:26 pm
Saio de casa com as chaves do carro na mão direita, os livros e a agenda seguros pelo braço esquerdo. A caixa do elevador está já ali, não é preciso carregar no botão para o convocar. Desço no seu interior em ausência de luz, enquanto não houver ordem de condomínio os vizinhos folgam e é sempre o outro, alguém, a fazê-lo. Ao empurrar a porta para sair e seguir para o dia que ainda não comecei a reconhecer, reconheço sim um empecilho ao ângulo que a porta faz quando é empurrada. Estendo o braço e forço a minha vontade, que me tenho vindo a conformar a uma impaciência fácil de manhã, assim tão cedo. O estorvo cede, e sinto uma reviravolta do lado de fora. Estico-me e encolho-me. Tento colocar a cabeça e o tronco do lado de fora, e espantam-me os olhos embaciados do sono. Por ali está um corpo extinto no chão, de rosto para baixo, o braço esquerdo segue o vector em frente e o direito recolhe um pacote de papel colado ao corpo. É um corpo masculino, em tons escuros e enquanto não consigo sair da caixa do elevador, a aflição do reconhecimento daquela realidade faz-me esquecer a dor do aperto que a porta me vai provocando contra o peito. O braço esquerdo pende, pálido.
Racionalizo que os assuntos que levo comigo podem ficar do lado de fora que os agruparei de novo, assim que retirar o meu canastro dali. E o outro ali permanece, quando olho para baixo. Não anima a indiferença respiratória. O tipo está morto, ocorre-me facilmente, na altura em que consigo finalmente sair do elevador. Debruço-me sobre o corpo e reconheço-lhe a fisionomia. Ergo-lhe o braço e é como se pegasse o meu próprio membro, quando fortuita e inopinadamente acordo em cima dele, depois de por várias horas lhe vetar a circulação. Costumo ficar com a noção de que não é meu, mas sim que me é extrínseco. Uma leve e longínqua sensação de não-pertença que assusta, não vá não lhe conseguir recuperar o controle e a articulação. O tórax doído, denuncia onde o metal impôs a sua densidade, justamente ao meio do peito. Debruço-me sobre ele e sinto um aperto, antes de virar o corpo, um leve asco pela frieza do contacto com a pele. A sensação de dormência percorre-me agora as vértebras e o pescoço, enquanto me sinto ser erguido.
Sou eu que ali jazo. No sonho, inundo-me de mim, e é nesse momento que acordo.
Racionalizo que os assuntos que levo comigo podem ficar do lado de fora que os agruparei de novo, assim que retirar o meu canastro dali. E o outro ali permanece, quando olho para baixo. Não anima a indiferença respiratória. O tipo está morto, ocorre-me facilmente, na altura em que consigo finalmente sair do elevador. Debruço-me sobre o corpo e reconheço-lhe a fisionomia. Ergo-lhe o braço e é como se pegasse o meu próprio membro, quando fortuita e inopinadamente acordo em cima dele, depois de por várias horas lhe vetar a circulação. Costumo ficar com a noção de que não é meu, mas sim que me é extrínseco. Uma leve e longínqua sensação de não-pertença que assusta, não vá não lhe conseguir recuperar o controle e a articulação. O tórax doído, denuncia onde o metal impôs a sua densidade, justamente ao meio do peito. Debruço-me sobre ele e sinto um aperto, antes de virar o corpo, um leve asco pela frieza do contacto com a pele. A sensação de dormência percorre-me agora as vértebras e o pescoço, enquanto me sinto ser erguido.
Sou eu que ali jazo. No sonho, inundo-me de mim, e é nesse momento que acordo.