| jack ( @ 2009-01-14 19:47:00 |
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sem título
Na outra noite estávamos os dois no carro. Nessa semana fiz o pleno ao levar-te a casa todos os dias. Parámos uma vez mais em frente à porta do edifício e ficámos os dois calados dentro do carro. Nessa noite, após teres entrado, cheia de frio, puseste o cinto, esfregaste as mãos e olhaste em frente. Sorriste, estavas feliz, mas não disseste nada até chegarmos. O plano em que paramos é inclinado, e quando te encostas no banco, posso imaginar-te deitada, mais descontraída. Como quando ficas no meu sofá depois de jantar. Ou no teu, em tua casa, onde nunca entrei. Mexes nas minhas mãos, procurando-lhe as palmas e o lado de dentro dos dedos. E depois os nós e as unhas, mexes-lhes enquanto chove muito do lado de fora do carro. Apertas-me os pulsos e deslizas os dedos para os meus antebraços. Gosto tanto da tua integridade e do teu sentido de justiça. Gosto tanto que sejas correcta e que faças sempre o mais merecido. Quase tanto como das tuas orelhas bicudas em cima. Disseste-me apenas que no dia seguinte era natal e que não me irias ver durante uma semana. Uma semana até poderes voltar a estar comigo em minha casa, da qual já tens a chave, e a tomar banho comigo. Enquanto me falavas, começaste a bater-me nas palmas das mãos com as tuas palmas das mãos, e afundaste o teu rosto na gola do casaco. Tens os olhos largos, tão castanhos e grandes. Começa a chover com mais força fora do carro e olhas para os cinco metros que te separam da porta de entrada. Não largas as mãos, ambas as minhas mãos. Ficaste ali até parar de chover, e depois ficaste mais um bocadinho. E depois alguém passou ao lado do carro com um chapéu-de-chuva e fechou-o à entrada do prédio. Gosto tanto de ti, e da tua necessidade de te questionares e ao teu dia quando estou em silêncio a ouvir-te. Enfiaste os dedos no trinco e abriste a porta ao frio ventoso e à chuva e saíste.