jack ([info]nomorefilms) wrote,
@ 2008-07-25 23:44:00
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Barthes
Saber que não se escreve para o outro, saber que isto que vou escrever não me fará nunca ser amado por quem amo, saber que a escrita nada compensa, nada sublima, que está precisamente aí onde tu não estás - é o começo da escrita.

Roland Barthes, fragmentos de um discurso amoroso




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[info]alternative_nat
2008-07-26 09:42 am UTC (link)
não consigo chegar lá. é como quem diz usar a escrita sem ser como instrumento, mas por si? mas ainda assim, se o fazes, não será um bocado masturbatório?

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[info]nomorefilms
2008-07-26 12:41 pm UTC (link)
eu gostei disto porque me fez sentir que o espaço da escrita é quase um não-lugar, um sítio de insustentabilidade, de absoluta falta de esperança e de comiseração. um sítio de liberdade. como se passasses a amar a escrita, o que escreves, um objecto transitivo se quiseres, ao invés do outro. esse espaço, esse lugar, é o de uma retirada.
mas secalhar nem isto te faz grande sentido. a verdade é que, neste sentido, a escrita estaria para lá da mera masturbação, mas sim, seria algo análogo. seria quase incluir um terceiro elemento que superaria o segundo - o objecto directo de amor - que, como não nos curte, também que se foda. ao menos esta via é segura. é uma lógica um bocado perturbada, mas foi o sentido que lhe dei.

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[info]alternative_nat
2008-07-26 02:54 pm UTC (link)
compreendo. mas para mim permanece um bocado fora da minha realidade. conceber algo sem presença ou influência de um outro (humano) é-me completamente assustador.

anyway, se utilizasses um terceiro objecto para subsituir o segundo, estarias à mesma a utilizar a escrita enquanto instrumento, não a amarias em si. e estar-te-ias a enganar.

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[info]comadre
2008-07-28 09:00 pm UTC (link)
e tê-lo amado?

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[info]nomorefilms
2008-07-28 11:57 pm UTC (link)
justamente.

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[info]nomorefilms
2008-07-28 11:57 pm UTC (link)
um gajo quando escreve, sobretudo quando escreve sobre amor, é sempre sobre, para alguém. saber que isso não resolve nada, ter essa lucidez, é que transforma a escrita num objecto em si mesmo. e é nesse momento que a coisa começa. instrumentalizar a escrita é o começo de qualquer actividade literária, e deixar de o fazer não é de todo muito imediato, mas, segundo este gajo, seria a partir de então que se começaria de facto a escrever. agora, e nisto sim cedo, não creio que ninguém comece a escrever sobre o discurso amoroso de uma forma autêntica sem primeiro ter recebido o outro em si e tê-lo amado.

o mesmo gajo, o barthes, diz isto:
«A atopia do amor, a característica que o faz escapar a todas as dissertações, seria que, em última instância, não é possível falar dele senão segundo uma estrita determinação alocutória; seja filosófico, gnómico, lírico ou romanesco, há sempre, no discurso sobre o amor, uma pessoa a quem nos dirigimos, ainda que essa pessoa tenha passado ao estado de fantasma ou de criatura que há-de vir. Ninguém tem necessidade de falar do amor se não é para alguém».
na verdade pouco importa. o que teve ressonância em mim, o que me bateu mesmo foi esta coisa de perder o contacto, esta sensação de retirada pela escrita. pá, achei lúcido.

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