| jack ( @ 2008-06-06 18:59:00 |
| Entry tags: | admissões |
#30, indolência no trabalho
Entardece aqui no gabinete, e eu sinto falta de te beijar na boca. Um sentimento particular, a falta de beijar a boca. Passam meses em que te beijo todo o contorno das orelhas, em que te sinto a dureza branda da cartilagem nos lábios e testo-lhe, devagar, a sensibilidade com os dentes. Passam minutos, meses, um manancial inconsequente de tempo, prazer alongado ao longo do teu rosto, das linhas que o definem pelo maxilar inferior. Sinto, nessas alturas, o verdadeiro vácuo que é afundar todo o meu saber nas bochechas que te arredondam a face, que ta prosam tão docemente. Prostro os lábios ao longo dos teus olhos, das esquinas do teu olhar fechado e pueril, pesado do cansaço do dia. Passo as minhas horas, as minhas noites, alongo e retardo o teu cheiro. É um desagradecimento que o corpo me impõe, e eu lhe imponho a ele: mesmo em dois sentidos tão próximos, poder conseguir cheirar-te a fundo mas, por muito que me aproxime, não alcançar o teu sabor.
Sinto tanta falta de te beijar na boca.
Deposito a minha ciência no teu queixo, ao cruzamento com os teus lábios, antes de os atentar. Prolongo a boca pelo teu pescoço, para sentir a diferença de superfície ao contacto com a pele, lábios, dentes e o segundo lábio, já ansioso, estremece e receia a entrega. É um lábio zeloso, o segundo. Zela pela integridade, pela constância, pela segurança que é não ter ainda acesso ao sabor. É que o segundo lábio é o último membro antes da língua, ela sim, já admitida, sôfrega, hemorrágica. O segundo lábio humedece, receoso, restringe-se em medo de amar, e é, de toda esta falange, o elemento com a tarefa mais ingrata.
A boca ergue-se à força do pescoço, e é o primeiro lábio que se deleita, tocando a adiposidade da tua boca, fina pela vida. Quando, finalmente, o segundo lábio chega, preparado, treinado, excitado, especialista e sente o calor vaporado da proximidade do teu interior, o seu intento é heróico. Recolher a tua boca ao ritmo do sabor com que me premeias é a última das instâncias da memória que percorro.
A tarde amadurece e esta temperatura é a do calor brando, macio, tenro do lado de dentro de ti.E faço isto para mim, para ti. Faço-me sentir falta de te beijar a boca, na boca. Da profunda imersão que me és quando te me permites.