| jack ( @ 2008-04-19 23:26:00 |
o que se quis manter: Onirismo
Saio de casa com as chaves do carro na mão direita, os livros e a agenda seguros pelo braço esquerdo. A caixa do elevador está já ali, não é preciso carregar no botão para o convocar. Desço no seu interior em ausência de luz, enquanto não houver ordem de condomínio os vizinhos folgam e é sempre o outro, alguém, a fazê-lo. Ao empurrar a porta para sair e seguir para o dia que ainda não comecei a reconhecer, reconheço sim um empecilho ao ângulo que a porta faz quando é empurrada. Estendo o braço e forço a minha vontade, que me tenho vindo a conformar a uma impaciência fácil de manhã, assim tão cedo. O estorvo cede, e sinto uma reviravolta do lado de fora. Estico-me e encolho-me. Tento colocar a cabeça e o tronco do lado de fora, e espantam-me os olhos embaciados do sono. Por ali está um corpo extinto no chão, de rosto para baixo, o braço esquerdo segue o vector em frente e o direito recolhe um pacote de papel colado ao corpo. É um corpo masculino, em tons escuros e enquanto não consigo sair da caixa do elevador, a aflição do reconhecimento daquela realidade faz-me esquecer a dor do aperto que a porta me vai provocando contra o peito. O braço esquerdo pende, pálido.
Racionalizo que os assuntos que levo comigo podem ficar do lado de fora que os agruparei de novo, assim que retirar o meu canastro dali. E o outro ali permanece, quando olho para baixo. Não anima a indiferença respiratória. O tipo está morto, ocorre-me facilmente, na altura em que consigo finalmente sair do elevador. Debruço-me sobre o corpo e reconheço-lhe a fisionomia. Ergo-lhe o braço e é como se pegasse o meu próprio membro, quando fortuita e inopinadamente acordo em cima dele, depois de por várias horas lhe vetar a circulação. Costumo ficar com a noção de que não é meu, mas sim que me é extrínseco. Uma leve e longínqua sensação de não-pertença que assusta, não vá não lhe conseguir recuperar o controle e a articulação. O tórax doído, denuncia onde o metal impôs a sua densidade, justamente ao meio do peito. Debruço-me sobre ele e sinto um aperto, antes de virar o corpo, um leve asco pela frieza do contacto com a pele. A sensação de dormência percorre-me agora as vértebras e o pescoço, enquanto me sinto ser erguido.
Sou eu que ali jazo. No sonho, inundo-me de mim, e é nesse momento que acordo.
Racionalizo que os assuntos que levo comigo podem ficar do lado de fora que os agruparei de novo, assim que retirar o meu canastro dali. E o outro ali permanece, quando olho para baixo. Não anima a indiferença respiratória. O tipo está morto, ocorre-me facilmente, na altura em que consigo finalmente sair do elevador. Debruço-me sobre o corpo e reconheço-lhe a fisionomia. Ergo-lhe o braço e é como se pegasse o meu próprio membro, quando fortuita e inopinadamente acordo em cima dele, depois de por várias horas lhe vetar a circulação. Costumo ficar com a noção de que não é meu, mas sim que me é extrínseco. Uma leve e longínqua sensação de não-pertença que assusta, não vá não lhe conseguir recuperar o controle e a articulação. O tórax doído, denuncia onde o metal impôs a sua densidade, justamente ao meio do peito. Debruço-me sobre ele e sinto um aperto, antes de virar o corpo, um leve asco pela frieza do contacto com a pele. A sensação de dormência percorre-me agora as vértebras e o pescoço, enquanto me sinto ser erguido.
Sou eu que ali jazo. No sonho, inundo-me de mim, e é nesse momento que acordo.