jack ([info]nomorefilms) wrote,
@ 2008-04-19 23:26:00
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o que se quis manter: Ao Subchefe
Vindo da esquadra, venho de visita ao mundo aparentemente apático do Subchefe Carlos Lopes, o agente de serviço esta noite. Depois do agente que estava a sair me ter indicado o gabinete contíguo ao corredor inicial, decorado com vários cartazes da Associação de Apoio à Vítima e uma enorme moldura de madeira de sobreiro com os direitos do detido em quatro línguas – por ordem: português, francês, inglês e castelhano –, o Subchefe acena-me e faz-me sinal para entrar e me sentar. Lanço-lhe um boa noite, enquanto puxo a cadeira que estava encostada à parede para a frente da sua secretária, gesto que o agente não estranha. Pergunta-me, enquanto, sem qualquer tentativa de o disfarçar, me procura avaliar de alto a baixo, o que é que me aconteceu.
O Subchefe Carlos Lopes tem uma estrutura robusta, não tem bigode (ninguém me estranhará acrescentar a ausência deste elemento específico numa descrição de um agente da PSP) no rosto anguloso, os braços são curtos para o tórax que alarga na cintura, as palmas das mãos sapudas e os dedos estranhamente repolhudos, com uma anilha de aliança grossíssima no dedo anelar. Os dedos batem o teclado displicentemente, ocupando toda a área da tecla.
Relato-lhe o sucedido, o desaparecimento da minha carteira e, por consequência, os meus documentos, entre os quais o BI, a carta de condução, o cartão de contribuinte, o título de registo de propriedade e o livrete do carro. Também se foram cinquenta e cinco euros (o máximo de recheio que a minha carteira tinha visto a preenchê-la em toda a sua já admitidamente longa vida de utilização), o cartão com nove refeições picadas no restaurante italiano onde costumo almoçar (a décima seria gratuita, portanto seriam mais cinco euros em perspectiva) e uns escritos que tinha discorrido numa factura larga, em certa ocasião de verborreia. O Subchefe indaga-me sobre o local onde penso ter perdido a carteira, ao que lhe respondo como o mais provável tendo sido na Avenida da Liberdade, entre as 21 e as 22 horas. O meu interlocutor não levanta os dedos nem o olhar do teclado, continuando visivelmente concentrado numa redacção do sucedido. Alerta-me que, no caso, talvez seja melhor generalizar à cidade inteira, sugestão com a qual concordo. Assim que respondo julgo ouvir em murmúrio o vocábulo “urbe”, o qual, no entanto, desacredito, talvez tenha ouvido mal. Pergunta-me entretanto o que é que faço, cedo o sorriso e respondo-lhe que sou aluno finalista de Psicologia Clínica. Pela primeira vez desde que o iniciou, interrompe o já frenético dactilografar e volta a olhar-me nos olhos. O Subchefe parece interessado, a avaliar pela quantidade de questões subsequentes sobre a matéria. Diz-me finalmente que é uma área que lhe chama a atenção por não ter ainda uma opinião sobre se é crível ou não. Ainda me questiona sobre se há saída no mercado de trabalho. Respondo-lhe que procura existe, mas o principal empregador, que ainda é o estado, não se dispõe a tal. Returque dizendo-me que o estado não tem dinheiro para investir em coisas assim. Um outro agente interrompe-o dizendo-lhe que tem entre mãos um internamento compulsivo e que tem de enviar um fax. O Subchefe diz-lhe que o horário do eventual receptor de tais faxes termina aos sábados às 16 horas. Dito assim, “às dezasseis horas”. O outro insiste, que o caso é complicado, que é um senhor que precisa de ser internado e o Subchefe olha para mim, porque as coincidências são para olhares assim. Diz ao colega que me aparente pertencer a uma classe hierárquica inferior pela diferença de trato, não obstante parecer mais velho. Ele sim, usa um farto bigode. O Subchefe diz-lhe que já o ajuda a resolver o caso, que são só mais cinco minutos até resolver o problema a este senhor, repartindo agora o olhar entre o teclado e o meu rosto.
Utiliza o dedo do meio para despachar o processo no Enter. A máquina lança-lhe a folha de papel alguns segundos depois e lê comigo a declaração que entretanto me introduz nas mãos. Assim que ele me passa a entretanto finalizada redacção para a mão, posso comprovar a utilização do ditoso vocábulo:

DECLARAÇÃO

Para os devidos efeitos se declara que Pedro, Residente na Rua do historiador perfeitamente olvidado, nº 54, 2ºdto – Lisboa, comunicou neste Departamento Policial que extraviou, algures nesta Urbe, os seguintes documentos que passo a citar: Bilhete de Identidade, Carta de Condução, Cartão de Contribuinte, documentos estes emitidos em nomes do participante, um Cartão de Débito emitido pela Caixa Geral de Depósitos, o título do registo de Propriedade e o Livrete do Veículo de matrícula 00-00-TP [o Tó Pires], ficando registado neste Departamento sob a NPP em Epígrafe.
Por ser verdade, foi passada a presente declaração, que depois de assinada, vai ser autenticada com carimbo em uso nesta Esquadra.


Pergunto-lhe se, francamente, posso esperar recuperar os documentos. Diz-me, com um discurso muito ruminado, de quem já o distribuiu centenas de vezes nos últimos meses, que há uma boa chance de tal suceder, para só procurar começar a fazer a segunda via dos documentos passados oitos dias do sucedido, ao que anuo. Vá ligando para a secção dos Olivais, sabe onde é, sei sim, e já tenho o contacto, faça isso, então. Agradeço e estico-lhe a mão. Este devolve-me a dele, segura, não muito maior que a minha, mas infinitamente mais nutrida.
Permanece a questão que provavelmente terá uma resposta o mais lógica possível, mas a qual não consigo desvendar: porque é que a maioria dos PSP são do norte? E por outra ainda, será que este lê Saramago?


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