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sabe o camané (ou soubesse)

Aug. 3rd, 2009 | 04:33 pm

Quem põe certezas na vida
Facilmente se embaraça
Na vil comédia do amor;
Não vale a pena ter alma
Porque o melhor é andarmos
Mentindo seja a quem for

Gosto de saber que vives,
Mas não perdi a cabeça
Nem corro atrás do desejo;
Quem se agarra muito ao sonho
Vê o reverso da vida
Nos movimentos dum beijo.

Ando queimado por dentro
De sentir continuamente
Uma coisa que me rala;
Nem no meu olhar o digo
Que estes segredos da gente
Não devem nunca ter fala.

Talvez não saibas que o amor,
Apesar das suas leis,
Desnorteia os corações;
- Complicadíssima teia
Onde se perde o bom senso
E as mais sagradas razões.


António Botto

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Ruído

Apr. 19th, 2009 | 07:53 am
music: bon iver, re: stacks

Vou odiar-te todos os dias da minha vida
Enquanto tiver força para tal.
E gostava apenas que conseguisses ouvir o som
que faço
que se faz ouvir
quando te odeio tantas noites seguidas
durante este tempo todo.

É assim um som brando, cadenciado
Um ruído quase imperceptível
que percorre todos os limites do meu corpo
E chega aos outros.

Eles sabem que o ouvem
Quando me tocam e eu lhes toco a eles.
Quando se apaixonam por mim
E eu
Por ti, uma e outra vez
Pela memória já desincorporada
Expropriada
que teima em não arredar daqui.

Eles não sabem que é por ti que se perdem
Pelo barulho que faz o asco
Este ranger rancoroso e furtivo.
E eu desprezo-os a eles
Ainda mais que a ti, por isso.

Quero que a vida te corra mal
Que te embebedes e não percebas porquê.
Que continues a chorar sozinha
Sempre que perceberes que ninguém vai ouvir.

Vais sempre saber que o teu amor
Estará seguro comigo.

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Avenida Estados Unidos da América

Mar. 2nd, 2009 | 07:35 pm
music: debussy, clair de lune

Há uns anos prolongaram a Avenida Estados Unidos da América até à zona do Vale Formoso, perímetro algo malfadado da cidade até ao advento da Expo ’98, que o veio revitalizar. Lisboa parecia ser cínica para com esta sua área, quase como se de um desagradável traço de personalidade ou um sinal feio no rosto se tratasse. Lá, foi colocando bairros sociais uns atrás dos outros, ultimamente pontuados por clubes de condomínios fechados estrategicamente situados. Sente-se isso como uma tentativa de sublimação dessa área desditosa, habitualmente sem grande sucesso, embora o novo urbanismo com as suas construções mais estilizadas se tenha ali de facto instalado. O prolongamento desta avenida veio torná-la numa artéria maior da cidade, embora lhe tenha conferido também uma maior complexidade ao nível do seu próprio percurso. Quem parte da zona oriental, mais perto do rio em direcção ao centro, pode facilmente observar a plêiade de contrastes arquitectónicos e sociais ao longo do próprio viaduto, o membro acoplado à já instalada avenida que nos leva praticamente aos limites de Lisboa. Assim, nesse sentido, quando chegamos ao final do viaduto, antes de cruzar o Senhor Almirante Gago Coutinho, paramos nos semáforos que, longamente demorados, nos parecem avaliar o merecimento da passagem para a cidade mais nobre, das avenidas mais antigas como as de Alvalade, Roma e a zona do Areeiro. Ou, por outra, de chegarmos à exibição dengosa de maior poder económico das avenidas e ruas novas ali coladas ao divertimento bárbaro e institucional do Campo Pequeno: Berna, 5 de Outubro, Valbom, o senhor Duque de Saldanha.
Nesses semáforos, dizia eu, justamente nesse ponto, como em poucos outros na cidade, sinto a verdadeira gravidade da solidão. Ontem à noite, em direcção justamente à zona do Saldanha, o semáforo decide, como costuma sempre fazer, interromper-me a inércia do movimento. Fico então ali, pouco antes das dez da noite, a coçar a nuca, displicente. Tento ignorar a referida solidão e a sua inexorável gravidade, sem grande sucesso. O carro ao lado do meu é a gasóleo, o motor faz um pouco mais de ruído, o suficiente para me fazer virar o olhar na sua direcção. Lá dentro vai uma mulher, jovem ainda, uns vinte e sete, vinte e oito anos, de cabelo curto, muito escuro. Procura algo dentro de uns cadernos que vai erguendo e que leva em cima do banco do pendura. A luz incidente do tecto do veículo ilumina-lhe o rosto e o olhar. Olhos claros, azuis parecem-me. O rosto é um pouco largo, anguloso, bonito, alguma sinuosidade nos físicos. Veste de preto e branco, de modo formal. Ela encontra finalmente o que procurava e coloca o famigerado objecto em baixo, em frente ao manípulo das mudanças - parece-me. Assim não se esquecerá de o levar consigo. Não consigo parar de olhá-la e, durante estes instantes, surge-me uma vontade imensa de contacto. São breves segundos, mas é preciso fazer algo para estabelecer ligação, inaugurar um vínculo, mesmo que banal, dizer-lhe seja o que for.
Mas não. Não há nada e o sinal verde cai. O semáforo, agente crítico e avaliador, permite-nos a passagem e ambos seguimos, alívio no travão, embraiagem, primeira velocidade, acelerador. Com o carro em movimento, não me lembro mais de tudo isto. Seguimos lado a lado por algumas dezenas de metros, até que o carro a gasóleo vira para a direita, Alvalade, que talvez derive do árabe “Al Balade”, local habitado e murado. Longe do deserto que a rodeia.
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Chegou ao fim.

Feb. 28th, 2009 | 07:19 pm
music: vinicius de moraes, águas de março

Com a defesa da tese, a vida académica, por ora, chegou ao fim. Foi um percurso bonito, cheio de vida nos primeiros anos e de maior interesse específico nos últimos.
Vou demorar a sair da tensão psíquica e física dos últimos dias, e bem sei que acaba um filme e começa outro. Contudo, mesmo perante as evidentes adversidades, estou optimista.

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bob haircut

Feb. 17th, 2009 | 03:47 pm
music: kings of leon, closer

Estive encostado à coluna do bar alguns minutos, por baixo do arco que se perfilava a partir desta até à parede lateral. De mãos nos bolsos, olhei-a enquanto dançava. Era o estímulo mais entusiasmante que por ali se afigurava, imiscuída no pequeno grupo de gente que se movia em ritmos destoantes. Vestia de preto dos pés à cabeça e sorria de olhos fechados, abrindo-os apenas quando um rapaz muito alto - e mesmo íngreme dir-se-ia - a procurava num abraço alcoólico. Ela ficava algo atrapalhada, talvez mesmo incomodada com estas manifestações ocasionais de carinho etilizado, e procurava-lhe as mãos. Parecia recear o caminho que elas queriam tomar. Quando me saturei da minha posição e do cenário, sinalizei-o silenciosamente com um suspiro e decidi vir sentar-me a um canto da divisão anterior.
Momentos depois, assim que terminou a faixa musical que passava a partir do disco de vinil até às colunas de má qualidade, vi-a a percorrer a divisão em direcção à casa de banho. Quando voltou, sentou-se no banco rasteiro ao lado do meu e acendeu um cigarro antes de me perguntar,
- Dás-me boleia?
- Boleia para onde?
- Onde vives?
- Do outro lado da cidade.
- Óptimo, é para lá que vou.
- Não sei se é uma boleia que procuras.
- Porquê, não gostas do meu aspecto?
- Não sei se é isso que está aqui em causa.
- Olha, eu posso ir-me embora. Mas sei que estiveste a olhar para mim enquanto eu dançava, por isso pensei que te podia vir aqui perguntar se me querias dar boleia.
- E o teu namorado?
- Ele não te conhece, tu não costumas vir aqui.
Senti que os segundos passavam lentamente, enquanto a via levar ansiosamente o cigarro à boca, e dar longas baforadas. Ela olhava-me nos olhos. Não lançava o fumo fora, deixando com que este fosse saindo enquanto falava, conforme os lábios descolavam um do outro. Era-me mais velha alguns anos, talvez se acercasse já dos trinta, mas estava em boa forma. Era endemicamente magra, o peito era pequeno mas vivo e as pernas tinha um ar forte, de quem caminha. Cabelo liso pelo queixo, o rosto de linhas finas, bem definidas, os pulsos eram finos e tinha apenas uma pulseira de metal no antebraço esquerdo. Usava o relógio fino no lado direito. A camisa preta estava bem colada ao corpo, com as duas primeiras casas desocupadas e as mangas um pouco arregaçadas. Podia ver a alça do soutien preto a percorrer um ponto médio do ombro, antes de descer para a omoplata. De perfil, quando se virava para olhar para a pista, era possível vislumbrar a copa do soutien, que continha a mama. Tinha um olhar triste, mas fazia-se confiante. Em poucos segundos, vi projectados imensos filmes à minha frente, daqueles film noir passados em Chicago nos anos 30 e 40. Procurando disfarçar a minha infantilidade, disse-lhe com um tom de voz seguro,
- Desculpa, mas não posso ajudar-te.
Sorriu e eu percebi que ela tinha ali, naquele momento, concluído algo muito importante sobre si própria. Só quando se levantou percebi quão bem cheirava, algo excepcional dada a cortina de fumo tabágico que se impunha. De pé, apagou o cigarro no cinzeiro que estava em cima da pequena mesa que nos separava, lançou a última baforada de fumo e foi-se embora.

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sem título

Jan. 14th, 2009 | 07:47 pm

Na outra noite estávamos os dois no carro. Nessa semana fiz o pleno ao levar-te a casa todos os dias. Parámos uma vez mais em frente à porta do edifício e ficámos os dois calados dentro do carro. Nessa noite, após teres entrado, cheia de frio, puseste o cinto, esfregaste as mãos e olhaste em frente. Sorriste, estavas feliz, mas não disseste nada até chegarmos. O plano em que paramos é inclinado, e quando te encostas no banco, posso imaginar-te deitada, mais descontraída. Como quando ficas no meu sofá depois de jantar. Ou no teu, em tua casa, onde nunca entrei. Mexes nas minhas mãos, procurando-lhe as palmas e o lado de dentro dos dedos. E depois os nós e as unhas, mexes-lhes enquanto chove muito do lado de fora do carro. Apertas-me os pulsos e deslizas os dedos para os meus antebraços. Gosto tanto da tua integridade e do teu sentido de justiça. Gosto tanto que sejas correcta e que faças sempre o mais merecido. Quase tanto como das tuas orelhas bicudas em cima. Disseste-me apenas que no dia seguinte era natal e que não me irias ver durante uma semana. Uma semana até poderes voltar a estar comigo em minha casa, da qual já tens a chave, e a tomar banho comigo. Enquanto me falavas, começaste a bater-me nas palmas das mãos com as tuas palmas das mãos, e afundaste o teu rosto na gola do casaco. Tens os olhos largos, tão castanhos e grandes. Começa a chover com mais força fora do carro e olhas para os cinco metros que te separam da porta de entrada. Não largas as mãos, ambas as minhas mãos. Ficaste ali até parar de chover, e depois ficaste mais um bocadinho. E depois alguém passou ao lado do carro com um chapéu-de-chuva e fechou-o à entrada do prédio. Gosto tanto de ti, e da tua necessidade de te questionares e ao teu dia quando estou em silêncio a ouvir-te. Enfiaste os dedos no trinco e abriste a porta ao frio ventoso e à chuva e saíste.

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roubado à lebre

Jan. 6th, 2009 | 02:41 pm

Digo-te por isso
que não me obrigues a luz.
Que escrever não é fácil,
que viver não é fácil
quando começamos a frase a meio.
Que lavo a cara ao chegar tão tarde
e mesmo assim o dia não se despega,
e mesmo assim
tu não estás, ninguém está.
Que não tenho espaço na minha secretária,
na minha vida, na minha cama
para tanto espaço.
Que já me disseram urbana,
e nem por isso me disseram decadente,
e que eu gostei.
Que já me disseram
muitas vezes
disfarçadamente triste,
e que por isso, por ser triste, por
sermos todos tristes, não mo deviam dizer.
Digo-te por isso
que não era minha intenção dizer-te mais uns versos
tristes e sem luz, e por isso, só por isso,
não era minha intenção dizer-te nada.


Filipa Leal
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Beta

Dec. 14th, 2008 | 10:35 pm

Subo no elevador do prédio e cheira cá dentro à Beta, que o perfume que usa é o mesmo desde há doze anos. É a minha vizinha do quinto, filha da Dona Fernanda, ela própria uma recorrência existencial, sempre com o mesmo feitio de saia-casaco desde que me lembro, no mesmo diálogo formal e cansado de fim de dia de trabalho. Ficou enquistada no momento em que o marido, cabo-verdiano, a deixou por uma preta lambona. A Beta deve ter uns vinte e nove, observei-a a crescer e a tornar-se numa das mulheres mais bonitas com quem tive oportunidade de estar ao vivo. Desistiu da escola no nono ano, já com dezoito, e foi trabalhar para a oficina do tio no Beato, onde este tinha a própria casa, por cima da oficina. Atendia os telefones. É diminuída, burrinha até ao fim dos dias, nem sempre se consegue perceber o género da pessoa de quem ela está a falar. Não obstante, de traços estranhamente finos para uma pele tão uniformemente morena, tem uma boca perfeita de cheia e ordenada, olhos pretos e cabelos encaracolado cor-de-violão, mornos de tão sedutores. Foi sempre a sua pièce de résistance, o cabelo. Já a vi com unhas de gel, maquilhada de modo fantasmagórico e cheia de anéis de pechisbeque, mas apenas conheci variações de comprimento ao seu cabelo.
Beta constituiu com Sónia, a vizinha do primeiro, uma das minhas primeiras fantasias masturbatórias. Sónia, já trintona quando eu ainda apenas despontava do seio da minha catatonia adolescentil, tinha dentes muito tortos, a pele era baça, a figura belfa e os braços negramente peludos. Contudo, transpirava sexo. Um sexo conspurcado, cheio de fluidos e cheiros acres e férreos. Beta não. Sempre prometeu, mais equatoriana naquele beleza ascética, e não menos africana nas voluptuosidades, uma redenção que ela própria nunca conseguiu cumprir. Aliás, mera ilusão. Em boa verdade, Beta correu os vãos de escada de todos os bairros sociais aqui da zona, e foi animal de estimação do tio do Beato, sempre se soube.
Hoje é operadora de telemarketing – a Sónia é adjunta da tipa que gere o museu de Sintra – e vejo-a por vezes chegar, no final do seu turno, pelas duas e meia da manhã. Mais frequente que não, apanho-a a fumar, solitária, à porta do prédio, como que a adiar o momento de regresso a casa. Ainda hoje, quando me vê chegar à noite, trata-me, como sempre o fez, por puto.
Nessas noites sonho-a lasciva, a fazer-me uma mamada no vão da escada. A ser maternal na deslocada lógica da cabeça dela.

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#33, disavowal

Dec. 8th, 2008 | 05:23 am

Quando encontrei esta artimanha para te não deixar ir, percebi que te podia escrever de todas as formas, em todo o lado, em princípios e em fins, em todas as pessoas do mundo. Mas o amor é meu, já o era antes de ser teu também e mesmo depois, quando o desocupaste, ele continuou a ser minha pertença. Durante tanto tempo apeteceu-me escrever-te em todas as estórias, a fazer de todas as mulheres em que pensei, comigo ou longe de mim, com outro. Mesmo já sem a tua voz, localizei-te em todo o lado, sob todas as luzes, com diferentes cheiros. Foste todos estes actos, restrições, sintomas, sonhos, narrativas, vislumbres e imagens. Em boa verdade, podias ser quem quer que fosses, eras sempre minha, comigo sempre a compor-te. Foi esse o teu dote, a tua prerrogativa comigo.
Entretanto, é este o espaço onde tudo foi morrendo. Depois de te decompor diametralmente e te fazer desempenhar papeis acessórios, deixei-te na primeira noite de insónia em muito tempo.

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Barthes

Jul. 25th, 2008 | 11:44 pm
music: james blackshaw, the past has not passed

Saber que não se escreve para o outro, saber que isto que vou escrever não me fará nunca ser amado por quem amo, saber que a escrita nada compensa, nada sublima, que está precisamente aí onde tu não estás - é o começo da escrita.

Roland Barthes, fragmentos de um discurso amoroso

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#32

Jul. 6th, 2008 | 09:09 pm

És a minha poesia mais difícil de parir, a minha única poesia de verdade. Digo-te isto de modo singelo, por te gostar tanto, de te precisar e da tua boca, que me irá sempre tardar. Tudo isto só mais uma vez. Dizer-to ameniza o meu silêncio, sem mágoa ou saudade, digo-o para que ele me passe a fazer companhia à mesa com a memória, e não mais me pese.

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silêncio

Jun. 29th, 2008 | 06:32 am
music: carlos paredes, canto de embalar

Se soubesses
Se às vezes soubesses
Como me sinto
Às vezes.

Se soubesses
Como é viver este silêncio
Este silêncio acanhado, acarinhado
Pesado e magoado, extraviado.

É por este silêncio
Que não te cedo
E é a ele que amo
De noite, sem pertença.

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da praia

Jun. 25th, 2008 | 03:24 pm

A minha relação com o mar é de uma estranha proximidade. Gosto muito de mergulhar, de me sentir desfazer naqueles milhões de metros cúbicos de ondas ou mera planície aquática. Já fiz praia de sul a norte - e não de norte a sul, porque sempre explorei muito mais o sul, como se deve depreender - e em qualquer membro, o mar sempre fez o favor de me amenizar. Aliás, dormir na praia deve ser a experiência mais próxima da felicidade e paz estásicas que imagino que seja morrer. Dormir na areia, não muito perto, não muito longe da beira-mar, ao ritmo pulsante das ondas, faz-me sentir afundado, imiscuido na areia, como se estivesse de verdade omisso no solo e que, se alguém me olhasse, não me veria. Bom, talvez visse apenas a proeminência do meu nariz cyraniano.
Assim, sei que embora não seja militante da praia e não faça por contrariar sequer a minha palidez endémica, sei que morrerei sempre que adormecer na praia. Até ao dia em que morrer mesmo, lá por perto, pelo menos perto o suficiente para ouvir o mar quando já não conseguir ver e tactear. No que respeita ao palato, faço muita questão que seja o último sentido a perder antes de morrer. Se for possível até, levá-lo-ei comigo, o sabor comigo, para mais nada.

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#31, por onde caem os sonhos

Jun. 16th, 2008 | 02:42 am

Tentei negociar com o tempo o melhor que pude. Ele olhou-me de frente e disse-me numa voz cândida, disse-me que não podia fazer mais nada por mim. Apresentei-lhe os teus maiores argumentos, a verdade que te encerra, a de seres o amor da minha vida. Disse-lhe, a suar, que te iria fazer persistir dentro de mim enquanto tivesse a faculdade de incorporar ar e fazê-lo parte de mim.
A memória pegou-me na mão esquerda e festejou-a, com o rosto. Senti as lágrimas rasgarem-me a pele, à velocidade da gravidade e da dor que me causavam. Quando fechei os olhos para aguentar as lâminas todas de uma vez, a memória assombrou-me a pele do antebraço com arrepios e beijou-me os olhos. Disse-me que devia deixar com que te perdesses, que devia deixar de te dar este norte que não é o teu.
A memória é uma mulher e enternece-se comigo, por me ver a chorar de amor. O tempo não. O tempo mantém-se presente na divisão, presente na sua ubiquidade, inflexível e surdo. É ele quem me diz, em breves gestos, para te deixar ir, perder-te no intervalo entre a cama e a parede.

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#30, indolência no trabalho

Jun. 6th, 2008 | 06:59 pm

Entardece aqui no gabinete, e eu sinto falta de te beijar na boca. Um sentimento particular, a falta de beijar a boca. Passam meses em que te beijo todo o contorno das orelhas, em que te sinto a dureza branda da cartilagem nos lábios e testo-lhe, devagar, a sensibilidade com os dentes. Passam minutos, meses, um manancial inconsequente de tempo, prazer alongado ao longo do teu rosto, das linhas que o definem pelo maxilar inferior. Sinto, nessas alturas, o verdadeiro vácuo que é afundar todo o meu saber nas bochechas que te arredondam a face, que ta prosam tão docemente. Prostro os lábios ao longo dos teus olhos, das esquinas do teu olhar fechado e pueril, pesado do cansaço do dia. Passo as minhas horas, as minhas noites, alongo e retardo o teu cheiro. É um desagradecimento que o corpo me impõe, e eu lhe imponho a ele: mesmo em dois sentidos tão próximos, poder conseguir cheirar-te a fundo mas, por muito que me aproxime, não alcançar o teu sabor.
Sinto tanta falta de te beijar na boca.
Deposito a minha ciência no teu queixo, ao cruzamento com os teus lábios, antes de os atentar. Prolongo a boca pelo teu pescoço, para sentir a diferença de superfície ao contacto com a pele, lábios, dentes e o segundo lábio, já ansioso, estremece e receia a entrega. É um lábio zeloso, o segundo. Zela pela integridade, pela constância, pela segurança que é não ter ainda acesso ao sabor. É que o segundo lábio é o último membro antes da língua, ela sim, já admitida, sôfrega, hemorrágica. O segundo lábio humedece, receoso, restringe-se em medo de amar, e é, de toda esta falange, o elemento com a tarefa mais ingrata.
A boca ergue-se à força do pescoço, e é o primeiro lábio que se deleita, tocando a adiposidade da tua boca, fina pela vida. Quando, finalmente, o segundo lábio chega, preparado, treinado, excitado, especialista e sente o calor vaporado da proximidade do teu interior, o seu intento é heróico. Recolher a tua boca ao ritmo do sabor com que me premeias é a última das instâncias da memória que percorro.
A tarde amadurece e esta temperatura é a do calor brando, macio, tenro do lado de dentro de ti.
E faço isto para mim, para ti. Faço-me sentir falta de te beijar a boca, na boca. Da profunda imersão que me és quando te me permites.

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Ainda a série do que se quis manter: As Masculinidades

May. 17th, 2008 | 03:42 pm
music: sun kil moon, moorestown

Na manhã seguinte à primeira vez que ficou em casa de um namorado adulto, assim que o sentiu acordar na cama, num húmido e quente nu, perguntou-lhe se ele se importava que ela assistisse enquanto ele fazia a barba. E repare-se, não que se importasse que ele a usasse desfeita, mas o ritual sempre a atraiu especialmente. A falta de ter crescido sem o hábito de ver um homem de toalha ou pijama, de rosto branco espumado, de ouvir o som da lâmina mergulhada na água tépida de meio em meio minuto, ou de sentir o cheiro também ele húmido e entorpecente dos produtos que tal masculinidade exigia, era-lhe subjugante.
O rapaz olhou-a, perplexo, e assentiu. Ambos foram primeiro aos afazeres urinários, visitaram à vez a cozinha e foi de lá que levou um banco de balcão, daqueles de média altura. Sentou-se de frente para ele, vendo-o de perfil, estacionada em frente ao bidé e antes da banheira. Observava-o atentamente, de cuecas e numa t-shirt dos pearl jam que o tio lhe tinha oferecido, ela que nem gostava assim tanto de pearl jam e, heresia das heresias, do Eddie Vedder. Que tinha um ar demasiado mole, mesmo para o eu adolescentil. Ele perguntou-lhe, a dada altura, se ela queria experimentar fazer um pequeno traçado do rosto, aquele por baixo do olhar direito até à veia jugular. Algo a medo, mas entusiasmada, empunhou a lâmina e desfez-lhe o rectângulo branco pintalgado da negra produção filiforme, de origem epidérmica, que cobre a superfície do corpo dos mamíferos. Daquele em especial, masculino e insular, que lhe sorria. Abraçou-o no final e sentiu as mãos grandes que a seguravam.

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o que se quis manter: Onirismo

Apr. 19th, 2008 | 11:26 pm

Saio de casa com as chaves do carro na mão direita, os livros e a agenda seguros pelo braço esquerdo. A caixa do elevador está já ali, não é preciso carregar no botão para o convocar. Desço no seu interior em ausência de luz, enquanto não houver ordem de condomínio os vizinhos folgam e é sempre o outro, alguém, a fazê-lo. Ao empurrar a porta para sair e seguir para o dia que ainda não comecei a reconhecer, reconheço sim um empecilho ao ângulo que a porta faz quando é empurrada. Estendo o braço e forço a minha vontade, que me tenho vindo a conformar a uma impaciência fácil de manhã, assim tão cedo. O estorvo cede, e sinto uma reviravolta do lado de fora. Estico-me e encolho-me. Tento colocar a cabeça e o tronco do lado de fora, e espantam-me os olhos embaciados do sono. Por ali está um corpo extinto no chão, de rosto para baixo, o braço esquerdo segue o vector em frente e o direito recolhe um pacote de papel colado ao corpo. É um corpo masculino, em tons escuros e enquanto não consigo sair da caixa do elevador, a aflição do reconhecimento daquela realidade faz-me esquecer a dor do aperto que a porta me vai provocando contra o peito. O braço esquerdo pende, pálido.
Racionalizo que os assuntos que levo comigo podem ficar do lado de fora que os agruparei de novo, assim que retirar o meu canastro dali. E o outro ali permanece, quando olho para baixo. Não anima a indiferença respiratória. O tipo está morto, ocorre-me facilmente, na altura em que consigo finalmente sair do elevador. Debruço-me sobre o corpo e reconheço-lhe a fisionomia. Ergo-lhe o braço e é como se pegasse o meu próprio membro, quando fortuita e inopinadamente acordo em cima dele, depois de por várias horas lhe vetar a circulação. Costumo ficar com a noção de que não é meu, mas sim que me é extrínseco. Uma leve e longínqua sensação de não-pertença que assusta, não vá não lhe conseguir recuperar o controle e a articulação. O tórax doído, denuncia onde o metal impôs a sua densidade, justamente ao meio do peito. Debruço-me sobre ele e sinto um aperto, antes de virar o corpo, um leve asco pela frieza do contacto com a pele. A sensação de dormência percorre-me agora as vértebras e o pescoço, enquanto me sinto ser erguido.
Sou eu que ali jazo. No sonho, inundo-me de mim, e é nesse momento que acordo.

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o que se quis manter: Ao Subchefe

Apr. 19th, 2008 | 11:26 pm

Vindo da esquadra, venho de visita ao mundo aparentemente apático do Subchefe Carlos Lopes, o agente de serviço esta noite. Depois do agente que estava a sair me ter indicado o gabinete contíguo ao corredor inicial, decorado com vários cartazes da Associação de Apoio à Vítima e uma enorme moldura de madeira de sobreiro com os direitos do detido em quatro línguas – por ordem: português, francês, inglês e castelhano –, o Subchefe acena-me e faz-me sinal para entrar e me sentar. Lanço-lhe um boa noite, enquanto puxo a cadeira que estava encostada à parede para a frente da sua secretária, gesto que o agente não estranha. Pergunta-me, enquanto, sem qualquer tentativa de o disfarçar, me procura avaliar de alto a baixo, o que é que me aconteceu.
O Subchefe Carlos Lopes tem uma estrutura robusta, não tem bigode (ninguém me estranhará acrescentar a ausência deste elemento específico numa descrição de um agente da PSP) no rosto anguloso, os braços são curtos para o tórax que alarga na cintura, as palmas das mãos sapudas e os dedos estranhamente repolhudos, com uma anilha de aliança grossíssima no dedo anelar. Os dedos batem o teclado displicentemente, ocupando toda a área da tecla.
Relato-lhe o sucedido, o desaparecimento da minha carteira e, por consequência, os meus documentos, entre os quais o BI, a carta de condução, o cartão de contribuinte, o título de registo de propriedade e o livrete do carro. Também se foram cinquenta e cinco euros (o máximo de recheio que a minha carteira tinha visto a preenchê-la em toda a sua já admitidamente longa vida de utilização), o cartão com nove refeições picadas no restaurante italiano onde costumo almoçar (a décima seria gratuita, portanto seriam mais cinco euros em perspectiva) e uns escritos que tinha discorrido numa factura larga, em certa ocasião de verborreia. O Subchefe indaga-me sobre o local onde penso ter perdido a carteira, ao que lhe respondo como o mais provável tendo sido na Avenida da Liberdade, entre as 21 e as 22 horas. O meu interlocutor não levanta os dedos nem o olhar do teclado, continuando visivelmente concentrado numa redacção do sucedido. Alerta-me que, no caso, talvez seja melhor generalizar à cidade inteira, sugestão com a qual concordo. Assim que respondo julgo ouvir em murmúrio o vocábulo “urbe”, o qual, no entanto, desacredito, talvez tenha ouvido mal. Pergunta-me entretanto o que é que faço, cedo o sorriso e respondo-lhe que sou aluno finalista de Psicologia Clínica. Pela primeira vez desde que o iniciou, interrompe o já frenético dactilografar e volta a olhar-me nos olhos. O Subchefe parece interessado, a avaliar pela quantidade de questões subsequentes sobre a matéria. Diz-me finalmente que é uma área que lhe chama a atenção por não ter ainda uma opinião sobre se é crível ou não. Ainda me questiona sobre se há saída no mercado de trabalho. Respondo-lhe que procura existe, mas o principal empregador, que ainda é o estado, não se dispõe a tal. Returque dizendo-me que o estado não tem dinheiro para investir em coisas assim. Um outro agente interrompe-o dizendo-lhe que tem entre mãos um internamento compulsivo e que tem de enviar um fax. O Subchefe diz-lhe que o horário do eventual receptor de tais faxes termina aos sábados às 16 horas. Dito assim, “às dezasseis horas”. O outro insiste, que o caso é complicado, que é um senhor que precisa de ser internado e o Subchefe olha para mim, porque as coincidências são para olhares assim. Diz ao colega que me aparente pertencer a uma classe hierárquica inferior pela diferença de trato, não obstante parecer mais velho. Ele sim, usa um farto bigode. O Subchefe diz-lhe que já o ajuda a resolver o caso, que são só mais cinco minutos até resolver o problema a este senhor, repartindo agora o olhar entre o teclado e o meu rosto.
Utiliza o dedo do meio para despachar o processo no Enter. A máquina lança-lhe a folha de papel alguns segundos depois e lê comigo a declaração que entretanto me introduz nas mãos. Assim que ele me passa a entretanto finalizada redacção para a mão, posso comprovar a utilização do ditoso vocábulo:

DECLARAÇÃO

Para os devidos efeitos se declara que Pedro, Residente na Rua do historiador perfeitamente olvidado, nº 54, 2ºdto – Lisboa, comunicou neste Departamento Policial que extraviou, algures nesta Urbe, os seguintes documentos que passo a citar: Bilhete de Identidade, Carta de Condução, Cartão de Contribuinte, documentos estes emitidos em nomes do participante, um Cartão de Débito emitido pela Caixa Geral de Depósitos, o título do registo de Propriedade e o Livrete do Veículo de matrícula 00-00-TP [o Tó Pires], ficando registado neste Departamento sob a NPP em Epígrafe.
Por ser verdade, foi passada a presente declaração, que depois de assinada, vai ser autenticada com carimbo em uso nesta Esquadra.


Pergunto-lhe se, francamente, posso esperar recuperar os documentos. Diz-me, com um discurso muito ruminado, de quem já o distribuiu centenas de vezes nos últimos meses, que há uma boa chance de tal suceder, para só procurar começar a fazer a segunda via dos documentos passados oitos dias do sucedido, ao que anuo. Vá ligando para a secção dos Olivais, sabe onde é, sei sim, e já tenho o contacto, faça isso, então. Agradeço e estico-lhe a mão. Este devolve-me a dele, segura, não muito maior que a minha, mas infinitamente mais nutrida.
Permanece a questão que provavelmente terá uma resposta o mais lógica possível, mas a qual não consigo desvendar: porque é que a maioria dos PSP são do norte? E por outra ainda, será que este lê Saramago?

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o que se quis manter: Ao sobrinho

Apr. 19th, 2008 | 11:23 pm

O petiz faz-me evocar as minhas memórias mais verdes - ou mais azuis, da infância -, ainda para mais no semblante triste. E angustia-me aquela indumentária de início de tarde de filho de nouveau riche: o pequeno fato castanho, o blazer em especial, os sapatitos, o cabelo cheio de gel para lhe amenizar o todo da figura. Patético. O miúdo olha para todos os familiares e amigos, colegas de trabalho do pai e da mãe e coleguinhas de turma, com um rosto de marcado entorpecimento, de enfado, de tristeza pura e simples. Aos poucos passo por ele, e desaperto-lhe um botão. E assim passo a tarde, entre as minhas retiradas para fumar cigarros e, à socapa, nas passagens por ele para aliviá-lo de mais uma casa da camisa apertada. Com a mãe distraída, lá vai brincando com os outros miúdos, que lhe aproveitam o quarto apetrechado, digno dos ainda recentes quatros anos de tempo empenhado.

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o que se quis manter: À Sabedoria

Apr. 19th, 2008 | 11:21 pm

Sabes, a verdadeira solidão configura-se depois de percebermos quem amamos. É uma solidão diferente, gasta de tanto escrita, um luto que nos acompanha lado a lado, o despropósito aceite como parte do que se sente. E todos os deliberados enganos a que me proponho só o são para me fazerem perceber o quão certo estou, e não me importo de com eles gastar o tempo até ti.
Mas olha, entretanto, podes levar os dias que trouxeste, que ainda nem sei o que fazer às foscas, mortiças madrugadas que a querença impôs.

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