El secreto de sus ojos.

Jul. 8th, 2010 | 01:27 am

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Deixado à porta.

May. 21st, 2010 | 05:05 pm

Dos dois anos que vivemos juntos, guardo sobretudo uma impressão sensorial dos fins de tarde solarengos. Lembro-me da forma como, quando chegavas a casa do trabalho, fechavas as persianas, puxando os cortinados das janelas. Era justamente num ângulo que protegia o olhar da incidência directa do sol que àquela hora do dia passava justamente entre os dois prédios em frente ao nosso. Os cortinados, curtos e amarelos, permitiam que a imensa luz entrasse e colorisse toda a marquise e a entrada da casa, até ao corredor interior.
Sempre achei que este teu gesto era cheio de intenção estética, mesmo sem nunca termos falado sobre isso. De resto, não sei se te recordas ou sequer se prestavas atenção, mas eu adorava ficar ali uns segundos depois de entrar em casa. Ficava a sentir na pele aquela luz e aquela cor, aquele amornecimento chegar-me aos ossos frios através do algodão da camisa e saber que aquilo, aquele calor, já era o teu e eu tinha chegado a casa. Sentia-me cozer por dentro de contentamento durante aqueles breves momentos e via, já então, a mossa tão grande que o teu amor deixava em mim, e o modo como me animava ainda mais o desejo de ti.
Por mim, teria feito amor contigo todos os dias, mal entrasse em casa, mesmo à luz acanhada do Outono e do Inverno. Lembro-me – e podes imaginar a minha razão a rir-se, condescendente – até da diferença entre o cheiro da casa nesses e nos dias demais, que resultava de um qualquer efeito que aquela mobília de madeira já antiga de porosa, sofria. Via-se o ar nesses dias, o espaço entre as coisas era menos transparente à luz daquele sol, menos entre nós. Como perguntava alguém*, quando estamos no mesmo lugar, perto um do outro, quando entre nós o espaço está cheio de ti, de nós, merecerá ainda o nome de espaço?


* Eugène Guillevic

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Casulo

Apr. 9th, 2010 | 03:53 pm

Tenho uma lagarta a fazer um casulo na parede por cima da porta do meu gabinete.

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sabe o camané (ou soubesse)

Aug. 3rd, 2009 | 04:33 pm

Quem põe certezas na vida
Facilmente se embaraça
Na vil comédia do amor;
Não vale a pena ter alma
Porque o melhor é andarmos
Mentindo seja a quem for

Gosto de saber que vives,
Mas não perdi a cabeça
Nem corro atrás do desejo;
Quem se agarra muito ao sonho
Vê o reverso da vida
Nos movimentos dum beijo.

Ando queimado por dentro
De sentir continuamente
Uma coisa que me rala;
Nem no meu olhar o digo
Que estes segredos da gente
Não devem nunca ter fala.

Talvez não saibas que o amor,
Apesar das suas leis,
Desnorteia os corações;
- Complicadíssima teia
Onde se perde o bom senso
E as mais sagradas razões.


António Botto

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Ruído

Apr. 19th, 2009 | 07:53 am
music: bon iver, re: stacks

Vou odiar-te todos os dias da minha vida
Enquanto tiver força para tal.
E gostava apenas que conseguisses ouvir o som
que faço
que se faz ouvir
quando te odeio tantas noites seguidas
durante este tempo todo.

É assim um ruído brando, cadenciado
Uma presença quase imperceptível,
que percorre todos os limites do meu corpo
E chega ao limite do outro.

Eles sabem que o ouvem
Quando me tocam e eu lhes toco a eles.
Quando se apaixonam por mim
E eu
Por ti, uma e outra vez
Pela memória já desincorporada,
à força expropriada,
mas que teima não arredar daqui.

Eles não sabem que é por ti que se perdem
Pelo barulho dormente que faz o asco
Este ranger rancoroso e furtivo.
E eu desprezo-os a eles
Ainda mais que a ti, por isso.

Quero que a vida te corra mal
Que te embebedes e não percebas porquê.
Que continues a chorar sozinha
Sempre que percebes que ninguém vai ouvir.

Pouco importará que desagues em alguém
Ninguém, nunca
Saberá ouvir o ruído
Que faz o meu amor adormecido.

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Avenida Estados Unidos da América

Mar. 2nd, 2009 | 07:35 pm
music: debussy, clair de lune

Há uns anos prolongaram a Avenida Estados Unidos da América até à zona do Vale Formoso, perímetro algo malfadado da cidade até ao advento da Expo ’98, que o veio revitalizar. Lisboa parecia ser cínica para com esta sua área, quase como se de um desagradável traço de personalidade ou um sinal feio no rosto se tratasse. Lá, foi colocando bairros sociais uns atrás dos outros, ultimamente pontuados por clubes de condomínios fechados estrategicamente situados. Sente-se isso como uma tentativa de sublimação dessa área desditosa, habitualmente sem grande sucesso, embora o novo urbanismo com as suas construções mais estilizadas se tenha ali de facto instalado. O prolongamento desta avenida veio torná-la numa artéria maior da cidade, embora lhe tenha conferido também uma maior complexidade ao nível do seu próprio percurso. Quem parte da zona oriental, mais perto do rio em direcção ao centro, pode facilmente observar a plêiade de contrastes arquitectónicos e sociais ao longo do próprio viaduto, o membro acoplado à já instalada avenida que nos leva praticamente aos limites de Lisboa. Assim, nesse sentido, quando chegamos ao final do viaduto, antes de cruzar o Senhor Almirante Gago Coutinho, paramos nos semáforos que, longamente demorados, nos parecem avaliar o merecimento da passagem para a cidade mais nobre, das avenidas mais antigas como as de Alvalade, Roma e a zona do Areeiro. Ou, por outra, de chegarmos à exibição dengosa de maior poder económico das avenidas e ruas novas ali coladas ao divertimento bárbaro e institucional do Campo Pequeno: Berna, 5 de Outubro, Valbom, o senhor Duque de Saldanha.
Nesses semáforos, dizia eu, justamente nesse ponto, como em poucos outros na cidade, sinto a verdadeira gravidade da solidão. Ontem à noite, em direcção justamente à zona do Saldanha, o semáforo decide, como costuma sempre fazer, interromper-me a inércia do movimento. Fico então ali, pouco antes das dez da noite, a coçar a nuca, displicente. Tento ignorar a referida solidão e a sua inexorável gravidade, sem grande sucesso. O carro ao lado do meu é a gasóleo, o motor faz um pouco mais de ruído, o suficiente para me fazer virar o olhar na sua direcção. Lá dentro vai uma mulher, jovem ainda, uns vinte e sete, vinte e oito anos, de cabelo curto, muito escuro. Procura algo dentro de uns cadernos que vai erguendo e que leva em cima do banco do pendura. A luz incidente do tecto do veículo ilumina-lhe o rosto e o olhar. Olhos claros, azuis parecem-me. O rosto é um pouco largo, anguloso, bonito, alguma sinuosidade nos físicos. Veste de preto e branco, de modo formal. Ela encontra finalmente o que procurava e coloca o famigerado objecto em baixo, em frente ao manípulo das mudanças - parece-me. Assim não se esquecerá de o levar consigo. Não consigo parar de olhá-la e, durante estes instantes, surge-me uma vontade imensa de contacto. São breves segundos, mas é preciso fazer algo para estabelecer ligação, inaugurar um vínculo, mesmo que banal, dizer-lhe seja o que for.
Mas não. Não há nada e o sinal verde cai. O semáforo, agente crítico e avaliador, permite-nos a passagem e ambos seguimos, alívio no travão, embraiagem, primeira velocidade, acelerador. Com o carro em movimento, não me lembro mais de tudo isto. Seguimos lado a lado por algumas dezenas de metros, até que o carro a gasóleo vira para a direita, Alvalade, que talvez derive do árabe “Al Balade”, local habitado e murado. Longe do deserto que a rodeia.
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Chegou ao fim.

Feb. 28th, 2009 | 07:19 pm
music: vinicius de moraes, águas de março

Com a defesa da tese, a vida académica, por ora, chegou ao fim. Foi um percurso bonito, cheio de vida nos primeiros anos e de maior interesse específico nos últimos.
Vou demorar a sair da tensão psíquica e física dos últimos dias, e bem sei que acaba um filme e começa outro. Contudo, mesmo perante as evidentes adversidades, estou optimista.

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bob haircut

Feb. 17th, 2009 | 03:47 pm
music: kings of leon, closer

Estive encostado à coluna do bar alguns minutos, por baixo do arco que se perfilava a partir desta até à parede lateral. De mãos nos bolsos, olhei-a enquanto dançava. Era o estímulo mais entusiasmante que por ali se afigurava, imiscuída no pequeno grupo de gente que se movia em ritmos destoantes. Vestia de preto dos pés à cabeça e sorria de olhos fechados, abrindo-os apenas quando um rapaz muito alto - e mesmo íngreme dir-se-ia - a procurava num abraço alcoólico. Ela ficava algo atrapalhada, talvez mesmo incomodada com estas manifestações ocasionais de carinho etilizado, e procurava-lhe as mãos. Parecia recear o caminho que elas queriam tomar. Quando me saturei da minha posição e do cenário, sinalizei-o silenciosamente com um suspiro e decidi vir sentar-me a um canto da divisão anterior.
Momentos depois, assim que terminou a faixa musical que passava a partir do disco de vinil até às colunas de má qualidade, vi-a a percorrer a divisão em direcção à casa de banho. Quando voltou, sentou-se no banco rasteiro ao lado do meu e acendeu um cigarro antes de me perguntar,
- Dás-me boleia?
- Boleia para onde?
- Onde vives?
- Do outro lado da cidade.
- Óptimo, é para lá que vou.
- Não sei se é uma boleia que procuras.
- Porquê, não gostas do meu aspecto?
- Não sei se é isso que está aqui em causa.
- Olha, eu posso ir-me embora. Mas sei que estiveste a olhar para mim enquanto eu dançava, por isso pensei que te podia vir aqui perguntar se me querias dar boleia.
- E o teu namorado?
- Ele não te conhece, tu não costumas vir aqui.
Senti que os segundos passavam lentamente, enquanto a via levar ansiosamente o cigarro à boca, e dar longas baforadas. Ela olhava-me nos olhos. Não lançava o fumo fora, deixando com que este fosse saindo enquanto falava, conforme os lábios descolavam um do outro. Era-me mais velha alguns anos, talvez se acercasse já dos trinta, mas estava em boa forma. Era endemicamente magra, o peito era pequeno mas vivo e as pernas tinha um ar forte, de quem caminha. Cabelo liso pelo queixo, o rosto de linhas finas, bem definidas, os pulsos eram finos e tinha apenas uma pulseira de metal no antebraço esquerdo. Usava o relógio fino no lado direito. A camisa preta estava bem colada ao corpo, com as duas primeiras casas desocupadas e as mangas um pouco arregaçadas. Podia ver a alça do soutien preto a percorrer um ponto médio do ombro, antes de descer para a omoplata. De perfil, quando se virava para olhar para a pista, era possível vislumbrar a copa do soutien, que continha a mama. Tinha um olhar triste, mas fazia-se confiante. Em poucos segundos, vi projectados imensos filmes à minha frente, daqueles film noir passados em Chicago nos anos 30 e 40. Procurando disfarçar a minha infantilidade, disse-lhe com um tom de voz seguro,
- Desculpa, mas não posso ajudar-te.
Sorriu e eu percebi que ela tinha ali, naquele momento, concluído algo muito importante sobre si própria. Só quando se levantou percebi quão bem cheirava, algo excepcional dada a cortina de fumo tabágico que se impunha. De pé, apagou o cigarro no cinzeiro que estava em cima da pequena mesa que nos separava, lançou a última baforada de fumo e foi-se embora.

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sem título

Jan. 14th, 2009 | 07:47 pm

Na outra noite estávamos os dois no carro. Nessa semana fiz o pleno ao levar-te a casa todos os dias. Parámos uma vez mais em frente à porta do edifício e ficámos os dois calados dentro do carro. Nessa noite, após teres entrado, cheia de frio, puseste o cinto, esfregaste as mãos e olhaste em frente. Sorriste, estavas feliz, mas não disseste nada até chegarmos. O plano em que paramos é inclinado, e quando te encostas no banco, posso imaginar-te deitada, mais descontraída. Como quando ficas no meu sofá depois de jantar. Ou no teu, em tua casa, onde nunca entrei. Mexes nas minhas mãos, procurando-lhe as palmas e o lado de dentro dos dedos. E depois os nós e as unhas, mexes-lhes enquanto chove muito do lado de fora do carro. Apertas-me os pulsos e deslizas os dedos para os meus antebraços. Gosto tanto da tua integridade e do teu sentido de justiça. Gosto tanto que sejas correcta e que faças sempre o mais merecido. Quase tanto como das tuas orelhas bicudas em cima. Disseste-me apenas que no dia seguinte era natal e que não me irias ver durante uma semana. Uma semana até poderes voltar a estar comigo em minha casa, da qual já tens a chave, e a tomar banho comigo. Enquanto me falavas, começaste a bater-me nas palmas das mãos com as tuas palmas das mãos, e afundaste o teu rosto na gola do casaco. Tens os olhos largos, tão castanhos e grandes. Começa a chover com mais força fora do carro e olhas para os cinco metros que te separam da porta de entrada. Não largas as mãos, ambas as minhas mãos. Ficaste ali até parar de chover, e depois ficaste mais um bocadinho. E depois alguém passou ao lado do carro com um chapéu-de-chuva e fechou-o à entrada do prédio. Gosto tanto de ti, e da tua necessidade de te questionares e ao teu dia quando estou em silêncio a ouvir-te. Enfiaste os dedos no trinco e abriste a porta ao frio ventoso e à chuva e saíste.

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roubado à lebre

Jan. 6th, 2009 | 02:41 pm

Digo-te por isso
que não me obrigues a luz.
Que escrever não é fácil,
que viver não é fácil
quando começamos a frase a meio.
Que lavo a cara ao chegar tão tarde
e mesmo assim o dia não se despega,
e mesmo assim
tu não estás, ninguém está.
Que não tenho espaço na minha secretária,
na minha vida, na minha cama
para tanto espaço.
Que já me disseram urbana,
e nem por isso me disseram decadente,
e que eu gostei.
Que já me disseram
muitas vezes
disfarçadamente triste,
e que por isso, por ser triste, por
sermos todos tristes, não mo deviam dizer.
Digo-te por isso
que não era minha intenção dizer-te mais uns versos
tristes e sem luz, e por isso, só por isso,
não era minha intenção dizer-te nada.


Filipa Leal
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